Deixei-me embalar pelo leve trepidar do comboio. A minha mente já há muito se afastara daquele local, perdia-se agora nas fragrâncias dos dias passados, na neve, nas manhãs do hotel, nas pescarias no gelo. Se me esquecesse de tudo o resto até soava a férias, se me esquecesse do propósito até soava a uma alegre viagem (daquelas que em letras garrafais compõem os cartazes das agências de turismo).
Um homem gordo arranca-me de tudo isto, enquanto pede licença para se sentar no banco ao meu lado, fito-o por dois segundos e levanto-me para que ele passe, só aí reparo na melodia irritante que infesta toda a carruagem, mais uma daquelas músicas natalícias, tão iguais a todas as outras servindo de analogia a todos os natais sempre tão grandiosamente iguais na sua banalidade.
Ao meu lado o homem gordo murmura algumas palavras, que não percebo, limito-me a acenar-lhe com a cabeça e ele parece satisfazer-se.
Fixo-me no relógio e reparo que já não falta assim tanto tempo.
Embora de espírito inquietado, encosto-me o mais confortavelmente possível na cadeira e solto um leve suspiro. O meu destino estava próximo, mas o modo atabalhoado e a finalidade com que esta viagem fora realizada estava longe de ser agradável. Esboço um trejeito irónico com os meus lábios, ao verificar como a repetitiva melodia de Natal penetra teimosamente nos meus ouvidos. O ambiente da carruagem não podia ser mais distinto daquele que habita na minha mente.
Sabendo que não faltavam mais de quinze minutos para chegar, obrigo-me a cogitar sobre o meu itinerário por uma última vez. Jogo a mão ao bolso interior do meu casaco e retiro o envelope que me fora entregue. Este continha uma carta que mostrava uma caligrafia fina e cuidada, com as indicações que eu deveria seguir, assim como uma pequena chave, prateada e ligeiramente gasta.
No preciso instante em que me dispunha a ler aquelas palavras novamente, uma tosse rouca e cavernosa interrompe os meus movimentos. Olho de soslaio para o homem gordo sentado ao meu lado e tento ignorá-lo. Contudo, com tal acto reflexo, noto também que este parece examinar cuidadosamente as minhas acções.
Reparo que os meus movimentos se vão tornando mais inseguros e impacientes. Reparo também que todas as minhas acções agora se conjugam no presente em vez do inicial pretérito. Isto não devia estar a acontecer, eu sou um profissional...
Lanço nova mirada ao gordo, este fita-me e permanece incauto, como se já nem se desse ao trabalho de disfarçar. As mãos tremem-me cada vez mais, como que possuídas por um vendaval, levanto-me e atravesso a carruagem em passos acelerados.
Noto que atrás de mim o gordo me segue com o olhar, permanecendo contudo sentado, entro na casa-de-banho trancando a porta atrás de mim. Avalio o cubículo, estudando uma hipótese de fugir por ali, junto à sanita avisto uma pequena janela, antes de sequer conseguir idealizar as minhas chances apercebo-me da impossibilidade de um corpo humano passar por ali, pelo menos inteiro. Detenho-me perante do lavatório pressionando repetidamente a torneira, que por sua vez se recusa a cuspir água. O que é que me está a acontecer, o que é que é diferente desta vez? Remexo nos bolsos em busca de um cigarro, quando três pancadas ocas me paralisam.
Sem comentários:
Enviar um comentário