Todo aquele espaço transforma-se numa espiral alucinante de um dejá vú. Já não se trata sequer de rememorar outros momentos, mas sim de vivê-los de novo, estou preso a um passado que é meu mas do qual não me recordo. Como se viajasse dentro da minha mente num espaço que me é desconhecido, vivo coisas que sei que vivi mas que não me recordo de ter vivido, a minha própria vida regenera-se agora numa constante novidade, mas se este passado é meu, se eu sei que já o vivi, como é possível que não tenha sequer a mais ínfima recordação de o ter vivido. A fotografia começa a tornar-se difusa, e eu afasto-me mais uma vez rumo a outra memória qualquer, cada vez menos nítida.
Viajo na minha mente, sem meta ou destino. Sinto a elevar-me como se de repente pudesse ver a minha vida a partir de outro ponto, de um local mais alto, e eu não passasse de alguém que caminha cá em baixo, vejo gente a atravessar a rua naquele estilo apressado que caracteriza as pessoas que passam na rua. Vejo-os a todos a seguirem os seus caminhos indiferentes à minha presença ignorando aquele que eu vejo cá de cima e que sou eu lá em baixo. De repente vejo-me a colocar a mão no sobretudo que trago às costas, vejo-me a retirar uma arma e a disparar dois tiros contra um dos indivíduos que caminha em sentido contrário ao meu, vejo-o a cair, vejo gente a gritar e vejo-me a mim a caminhar como se não me tivesse apercebido do que sucedera. Vejo-me a fazer tudo isto lá em baixo, e tudo tem um sabor estranhamente familiar, como se me lembrasse mas não me lembrando. Eu sei que vivi isto, mas não me consigo lembrar de quando e como.
Continuo no meu ponto alto, quase atmosférico, a observar-me. Desta vez, vejo-me numa janela de um prédio, num outro prédio à minha frente vejo um homem e uma mulher, vejo-os deitados, ambos nus, pela cara de satisfação que ele ostenta consigo perceber que provavelmente estavam a desfrutar de um momento de relaxação pós-coito. O meu “eu” lá de baixo parece indiferente a isto, o meu “eu” lá de baixo parece estar cego encostado à janela apenas à espera de uma oportunidade. O homem da outra janela aproxima-se dela para acender um cigarro, e o meu eu esboça um esgar semelhante a um sorriso. No instante seguinte dispara, o homem cai e a mulher levanta-se em sobressalto. O meu “eu” lá de baixo não se preocupa em assistir a mais nada e vai-se embora.
Não sei quanto tempo fiquei naquele ponto ancestral a assistir à vida que vivi, vejo-me a matar gente em variados pontos do globo, de variadas formas, mantendo apenas um único aspecto em comum, o semblante. A única coisa que não muda em nenhum daqueles episódios é a minha expressão, desinteressada, distante, onde não haveria qualquer esperança de encontrar sequer um pingo de hesitação ou arrependimento. A pureza do meu “eu” deixa-me saudosista, reparo que nos últimos tempos nem isso tenho conseguido ser, por muito execrável que fosse no passado, agora nem isso consigo.
Sou uma mera inexistência presa num passado que agora nem isso consigo. Sou uma mera inexistência presa num passado que não reconheço. Numa vida que vivi mas que nunca me pertenceu. Enquanto divago sobre a minha própria existência, continuo lá em baixo a matar alvos, a cumprir a minha função com a exemplaridade que me definia. Lembro-me disso, lembro-me de não falhar um prazo, era famoso por “entregar sempre a encomenda a tempo”, essa fama valeu-me novas encomendas e nome no mercado.
Tornei-me realmente bom no que fazia, e enquanto aniquilo gente lá em baixo começo a lembrar-me de tudo isto, lembro-me inclusivamente do meu último patrão, de repente até já começo a recordar-me de algumas coisas sobre mim. Lá em baixo entro num comboio e disparo quatro tiros para a cabeça de um homem de meia-idade. Cá em cima vou-me lembrando da minha casa. Lá em baixo, degolo uma mulher nas traseiras de um bar, cá em cima recordo-me até da cara da minha mãe. Lá em baixo, faço explodir com a sede do conselho de administração de uma multinacional, cá em cima acabo por me recordar de onde conheço o gordo...
Oh não! O gordo... Não pode ser...
Viajo na minha mente, sem meta ou destino. Sinto a elevar-me como se de repente pudesse ver a minha vida a partir de outro ponto, de um local mais alto, e eu não passasse de alguém que caminha cá em baixo, vejo gente a atravessar a rua naquele estilo apressado que caracteriza as pessoas que passam na rua. Vejo-os a todos a seguirem os seus caminhos indiferentes à minha presença ignorando aquele que eu vejo cá de cima e que sou eu lá em baixo. De repente vejo-me a colocar a mão no sobretudo que trago às costas, vejo-me a retirar uma arma e a disparar dois tiros contra um dos indivíduos que caminha em sentido contrário ao meu, vejo-o a cair, vejo gente a gritar e vejo-me a mim a caminhar como se não me tivesse apercebido do que sucedera. Vejo-me a fazer tudo isto lá em baixo, e tudo tem um sabor estranhamente familiar, como se me lembrasse mas não me lembrando. Eu sei que vivi isto, mas não me consigo lembrar de quando e como.
Continuo no meu ponto alto, quase atmosférico, a observar-me. Desta vez, vejo-me numa janela de um prédio, num outro prédio à minha frente vejo um homem e uma mulher, vejo-os deitados, ambos nus, pela cara de satisfação que ele ostenta consigo perceber que provavelmente estavam a desfrutar de um momento de relaxação pós-coito. O meu “eu” lá de baixo parece indiferente a isto, o meu “eu” lá de baixo parece estar cego encostado à janela apenas à espera de uma oportunidade. O homem da outra janela aproxima-se dela para acender um cigarro, e o meu eu esboça um esgar semelhante a um sorriso. No instante seguinte dispara, o homem cai e a mulher levanta-se em sobressalto. O meu “eu” lá de baixo não se preocupa em assistir a mais nada e vai-se embora.
Não sei quanto tempo fiquei naquele ponto ancestral a assistir à vida que vivi, vejo-me a matar gente em variados pontos do globo, de variadas formas, mantendo apenas um único aspecto em comum, o semblante. A única coisa que não muda em nenhum daqueles episódios é a minha expressão, desinteressada, distante, onde não haveria qualquer esperança de encontrar sequer um pingo de hesitação ou arrependimento. A pureza do meu “eu” deixa-me saudosista, reparo que nos últimos tempos nem isso tenho conseguido ser, por muito execrável que fosse no passado, agora nem isso consigo.
Sou uma mera inexistência presa num passado que agora nem isso consigo. Sou uma mera inexistência presa num passado que não reconheço. Numa vida que vivi mas que nunca me pertenceu. Enquanto divago sobre a minha própria existência, continuo lá em baixo a matar alvos, a cumprir a minha função com a exemplaridade que me definia. Lembro-me disso, lembro-me de não falhar um prazo, era famoso por “entregar sempre a encomenda a tempo”, essa fama valeu-me novas encomendas e nome no mercado.
Tornei-me realmente bom no que fazia, e enquanto aniquilo gente lá em baixo começo a lembrar-me de tudo isto, lembro-me inclusivamente do meu último patrão, de repente até já começo a recordar-me de algumas coisas sobre mim. Lá em baixo entro num comboio e disparo quatro tiros para a cabeça de um homem de meia-idade. Cá em cima vou-me lembrando da minha casa. Lá em baixo, degolo uma mulher nas traseiras de um bar, cá em cima recordo-me até da cara da minha mãe. Lá em baixo, faço explodir com a sede do conselho de administração de uma multinacional, cá em cima acabo por me recordar de onde conheço o gordo...
Oh não! O gordo... Não pode ser...