Os Autores

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Capítulo 31 (Paradoxo Em Negro)

 Todo aquele espaço transforma-se numa espiral alucinante de um dejá vú. Já não se trata sequer de rememorar outros momentos, mas sim de vivê-los de novo, estou preso a um passado que é meu mas do qual não me recordo. Como se viajasse dentro da minha mente num espaço que me é desconhecido, vivo coisas que sei que vivi mas que não me recordo de ter vivido, a minha própria vida regenera-se agora numa constante novidade, mas se este passado é meu, se eu sei que já o vivi, como é possível que não tenha sequer a mais ínfima recordação de o ter vivido. A fotografia começa a tornar-se difusa, e eu afasto-me mais uma vez rumo a outra memória qualquer, cada vez menos nítida.
            Viajo na minha mente, sem meta ou destino. Sinto a elevar-me como se de repente pudesse ver a minha vida a partir de outro ponto, de um local mais alto, e eu não passasse de alguém que caminha cá em baixo, vejo gente a atravessar a rua naquele estilo apressado que caracteriza as pessoas que passam na rua. Vejo-os a todos a seguirem os seus caminhos indiferentes à minha presença ignorando aquele que eu vejo cá de cima e que sou eu lá em baixo. De repente vejo-me a colocar a mão no sobretudo que trago às costas, vejo-me a retirar uma arma e a disparar dois tiros contra um dos indivíduos que caminha em sentido contrário ao meu, vejo-o a cair, vejo gente a gritar e vejo-me a mim a caminhar como se não me tivesse apercebido do que sucedera. Vejo-me a fazer tudo isto lá em baixo, e tudo tem um sabor estranhamente familiar, como se me lembrasse mas não me lembrando. Eu sei que vivi isto, mas não me consigo lembrar de quando e como.
            Continuo no meu ponto alto, quase atmosférico, a observar-me. Desta vez, vejo-me numa janela de um prédio, num outro prédio à minha frente vejo um homem e uma mulher, vejo-os deitados, ambos nus, pela cara de satisfação que ele ostenta consigo perceber que provavelmente estavam a desfrutar de um momento de relaxação pós-coito. O meu “eu” lá de baixo parece indiferente a isto, o meu “eu” lá de baixo parece estar cego encostado à janela apenas à espera de uma oportunidade. O homem da outra janela aproxima-se dela para acender um cigarro, e o meu eu esboça um esgar semelhante a um sorriso. No instante seguinte dispara, o homem cai e a mulher levanta-se em sobressalto. O meu “eu” lá de baixo não se preocupa em assistir a mais nada e vai-se embora.
 

            Não sei quanto tempo fiquei naquele ponto ancestral a assistir à vida que vivi, vejo-me a matar gente em variados pontos do globo, de variadas formas, mantendo apenas um único aspecto em comum, o semblante. A única coisa que não muda em nenhum daqueles episódios é a minha expressão, desinteressada, distante, onde não haveria qualquer esperança de encontrar sequer um pingo de hesitação ou arrependimento. A pureza do meu “eu” deixa-me saudosista, reparo que nos últimos tempos nem isso tenho conseguido ser, por muito execrável que fosse no passado, agora nem isso consigo. 
            Sou uma mera inexistência presa num passado que agora nem isso consigo. Sou uma mera inexistência presa num passado que não reconheço. Numa vida que vivi mas que nunca me pertenceu. Enquanto divago sobre a minha própria existência, continuo lá em baixo a matar alvos, a cumprir a minha função com a exemplaridade que me definia. Lembro-me disso, lembro-me de não falhar um prazo, era famoso por “entregar sempre a encomenda a tempo”, essa fama valeu-me novas encomendas e nome no mercado.
            Tornei-me realmente bom no que fazia, e enquanto aniquilo gente lá em baixo começo a lembrar-me de tudo isto, lembro-me inclusivamente do meu último patrão, de repente até já começo a recordar-me de algumas coisas sobre mim. Lá em baixo entro num comboio e disparo quatro tiros para a cabeça de um homem de meia-idade. Cá em cima vou-me lembrando da minha casa. Lá em baixo, degolo uma mulher nas traseiras de um bar, cá em cima recordo-me até da cara da minha mãe. Lá em baixo, faço explodir com a sede do conselho de administração de uma multinacional, cá em cima acabo por me recordar de onde conheço o gordo...
            Oh não! O gordo... Não pode ser...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Próximo capitulo

Por motivos alheios aos autores o próximo capítulo de Paradoxo em Negro será lançado durante esta semana ao invés de ser lançado segunda-feira como é habitual.
Pedimos desculpa a todos os que aguardavam ansiosamente para devorar mais um capítulo desta saga hedionda.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Capítulo 30 (Paradoxo Em Negro)

Incrédulo, estudo a fotografia que tenho na mão uma e outra vez. Tento encontrar uma falha, algo que me demonstre que até o meu cérebro tem de estar enganado. Todavia, por mais que altere a perspectiva, a imagem é sempre a mesma. 
            Olho uma derradeira vez para a fotografia antes de a colocar no bolso. Trata-se de uma peça antiga, com os rebordos já ligeiramente fustigados pelo tempo. Não existe qualquer cor. Um preto e branco puro toma conta do desenho, oferecendo um contraste sublime ao que os meus olhos captam. Engulo em seco. 
            Na fotografia estou eu sentado pacatamente ao lado do gordo, num dos compridos bancos do átrio do hotel. Ambos desfrutamos de um charuto e seguramos um copo que me parece conter um aperitivo. O mais assustador é a nossa expressão. Olhamos um para o outro como se fossemos velhos conhecidos, como se tivéssemos já passado inúmeras temporadas em indescritíveis aventuras. Existe um olhar de cumplicidade no qual não me revejo.
            Guardo a fotografia no meu casaco. Se todo este espaço for de facto o meu subconsciente, então sinto-me cada vez mais perdido. Se a minha mente me transmitiu uma sensação de repugnância perante o gordo durante este tempo todo, por que razão me mostra agora uma fotografia que parece representar uma forte amizade? 


            Envolto nos meus pensamentos, quando dou por mim estou de volta ao átrio. Olho com um ligeiro arrepio para o banco onde supostamente a fotografia foi tirada e paro. Não o desejo fazer, mas pé ante pé caminho lentamente na sua direcção. Paro a escassos centímetros do objecto. Cautelosamente, sento-me numa das pontas do banco e o átrio enche-se de vida. 
            "Os Senhores desejam ficar com este momento marcado?", pergunta um fotógrafo, nitidamente entusiasmado. 
            Uma gargalhada rouca antecipa-se à resposta. 
            "Sim sim, por que não?"
            Viro o pescoço para o meu lado direito e arregalo os olhos. Com um sorriso enorme, o gordo dá um toque no meu ombro e fita a objectiva.
            "Vamos, és sempre a mesma coisa. Mostra lá uma cara bem-disposta para variar", afirma o gordo através de um resmungo divertido. 
            Com os movimentos paralisados, é com um esforço enorme que me inteiro da situação. Cá estou eu, com um charuto, um copo de Whisky e na companhia do maldito gordo. 
           

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Capítulo 29 (Paradoxo Em Negro)

 Silêncio. Paz. Com o cérebro a mil, descubro rapidamente onde estou. Provavelmente até porque já o esperava no meu íntimo. Com um toque seco, abro repentinamente a porta da casa de banho do hotel. O átrio deste encontra-se tal e qual como o vi da última vez. Uma música ambiente repousante continua a acompanhar os murmúrios próprios do espaço. Os clientes do hotel até me parecem os mesmos. Tal como o episódio do comboio, eu não me limito a voltar ao mesmo sítio. Eu estou a viver o mesmo momento.
            O mesmo empregado caminha já na minha direcção para perguntar se está tudo bem. Ignoro-o. Preciso de pensar. 
            O meu cérebro comanda-me. Mentalizo-me mais uma vez de que na realidade estou algures preso a uma mesa, onde um homem que nunca vi na vida me induz neste sono demente. E se assim é, então é porque o comboio e este hotel foram, ou são, relevantes na minha vida. O problema é que não vejo como. Nem um nem outro me despertam qualquer memória ou sensação em especial, a não ser uma enorme desorientação. 


            Colocando esse sentimento de lado, proponho-me a tentar descobrir algo que me retire deste pesadelo. Da última vez, abandonei o hotel à pressa. Pois bem, vamos ver se desta vez encontro algo que me tenha escapado. 
            Caminhando sem destino aparente, deixo que o acaso guie os meus pés. Passo por um jovem casal e desvio-me levianamente de duas crianças que correm atrás uma da outra. Noto que as suas gargalhadas vêm acompanhadas com um eco fantasmagórico, como se de um sonho desconfortável se tratasse. Paro. Volto para o átrio e fecho os olhos. 
            Sinto que o meu ritmo cardíaco aumenta automaticamente. Estou prisioneiro da minha mente há um tempo incontável e só agora é que me apercebo disto. 
            Quando estou em certas zonas daquilo que penso ser a minha memória, os sons são perfeitos. Mas agora que reparo, existem alturas em que os sons à minha volta ganham um eco estranho, uma aura que soa a algo irreal. Deduzo que tenha levado tanto tempo a descobrir isto devido ao pânico que me tem toldado o discernimento.


            Decidido a sair desta prisão, caminho de um modo errático ao longo do perímetro do átrio, parando várias vezes para escutar com atenção o ambiente em meu redor. Retrocedo várias vezes até me decidir por onde ir. Após aquilo que penso terem sido cerca de duas horas, dou por mim num corredor do terceiro andar. Embora sinta que estou a fazer progressos, não percebo por que razão é que vim aqui ter. Esta imagem não me diz nada, por enquanto. 
            Caminho lentamente até ao seu final, agora sem saber o que fazer. O meu instinto trouxe-me até aqui, mas ainda não compreendo porquê. Todavia, para minha grande surpresa, a minha mente parece finalmente querer auxiliar-me. 
            No preciso momento em que me preparava para voltar ao átrio, sinto uma porta a abrir-se do meu lado esquerdo. Dou um pulo com o susto, mas depressa controlo os meus movimentos, ao ver a face de um velho que sorri ternamente na minha direcção. 
            "Até que enfim que chegaste", diz-me ele. "Agora já posso ir finalmente descansar."
            Assim que termina a sua enigmática frase, estende-me a mão. Sem uma palavra, aceito do velho aquilo que parece ser uma fotografia bastante antiga. Este faz um aceno e fecha a porta delicadamente. É quando levanto a fotografia ao nível dos meus olhos que tudo se torna outra vez demasiado estranho.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Capítulo 28 (Paradoxo Em Negro)

 Sinto o meu corpo a tremer como se me preparasse para desmaiar, roubaram-me tudo de novo, aquela gloriosa sensação de ter pelo menos um pouco de controlo sobre tudo isto desvanece-se abruptamente. Rodopio na carruagem em torno de uma resposta, uma pista, um sinal, qualquer coisa serve, confesso que neste momento já não sou exigente.
            Toda aquela gente me ignora, correndo de um lado para o outro, como se tudo não passasse de uma peça de teatro em que o meu lugar é mesmo no centro do palco. Como se tudo fosse um filme e eu estivesse dentro do ecrã, como mero espectador, ninguém me toca e eu não toco em ninguém. Como se tudo o que eu fizesse fosse simplesmente irrelevante, o poder já não é meu, há muito que eu não controlo nada e me limito a atravessar este comboio, como uma força indelével na qual ninguém repara. 

            Este comboio... Sempre este comboio. A minha mente... Sempre a minha mente.
            Olho para tudo isto como se não passasse de uma espiral, um tornado onde eu me vou deixando envolver cada vez mais, até não passar de uma leve árvore esvoaçando e rodopiando rumo ao impacto final. Fecho os olhos e vejo tudo a acontecer outra vez, tudo a passar e a passar e a passar, como se fosse obrigado a viver cada instante da minha vida num modo de repetição constante. Como se uma melodia irritante me tomasse de assalto o cérebro e insistisse em ficar ali instalada até ao ponto maior da loucura. 
            Isto sou eu, já sem mais nada. Isto sou eu a lutar contra uma força impossível de derrubar, pois corresponde exactamente à minha pessoa. Isto sou eu a remar sozinho contra a maré de mim próprio que insiste em arrastar-me. Isto sou eu correndo em direcção a um final demasiado feio para ser sequer descritível em palavras.
            Lembro-me de Shakespeare que disse “Nunca tentem um homem desesperado.” E o que sou eu? Senão o mais desesperado de todos os homens... Porque continuam a tentar-me, porque continuam a tirar-me o controlo da única coisa que eu ainda tentava controlar... a minha vida.
            Desejo abrir os olhos e simplesmente acordar, descobrir que todos estes dias não passaram de um sonho qualquer, promovido por uma noite de bebedeira. Desejo que toda esta realidade irreal se reduza definitivamente à sua noção de irrealidade e me deixe viver no mundo real, pois apesar de desagradável, eu já o conheço. 
            Peço que tudo se apague, peço que todos estes figurantes desapareçam e que eu possa ser apenas eu, sozinho como sempre. Peço que este comboio desapareça e que leve consigo toda esta loucura. Peço. Peço, com tal intensidade, que acaba por acontecer...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Capítulo 27

 Cada passo que dou neste comboio que acelera pelo meu inconsciente reveste-se de uma cada vez maior satisfação. Se durante todo este tempo eu andei perdido na minha mente, significa que dependerá apenas de mim compreender definitivamente esta situação. A cognoscibilidade é um trunfo do meu lado, pertence-me e está confortavelmente alojada no meu cérebro. E agora finalmente tenho um nome, um objectivo...
             António Marques, é esta a causa que me resta, e se eu sei o seu nome é porque o conheço, algures na minha mente está presente tal pessoa, em algum momento da minha vida os nossos caminhos deverão ter-se cruzado, agora só me cabe descobrir quando. 

            Olho em volta no corredor em busca de algo fora do comum, algo que não estivesse lá das outras vezes em que o atravessei, mas nada... Tudo parece estar igual, as pessoas parecem as mesmas, sentadas nos mesmos lugares, algumas conversando entre si, outras dormindo. Tudo isto é um dejá vu que no meu caso já se tornou quotidiano.
 

            Chego à porta da casa de banho, o local que a minha mente transformou numa porta de viagem, que me transporta de um lugar para outro. Esta está vazia tal como da primeira vez, entro e tranco a porta, agora resta-me apenas esperar que alguém bata. Sento-me na sanita e acendo um cigarro, cada inspiração vai-me revigorando, como se uma nova alma me preenchesse o corpo. 
            A minha mente revitaliza-se e arrasta com ela a minha carcaça que parecia cada vez mais destroçada. Por instantes esqueço me do gordo, do comboio e do facto de aquele cigarro existir apenas no meu cérebro, limitando-me a desfrutar daquele momento. 
            Demoro a reparar que já passou muito mais tempo do que da primeira vez, e que ainda ninguém bateu, preparava-me para espreitar quando sou surpreendido por uma travagem brusca do comboio. Abro subitamente a porta e verifico, para minha surpresa, que estou no mesmo sítio, naquele comboio infernal.
            Desta vez, contudo, o ambiente está diferente, as pessoas gritam e correm de um lado para o outro, um banco parece estar a arder e ao meu lado oiço um grito: “alguém acuda, este homem levou um tiro!”, olho e quase que me apetece sorrir perante a ironia, é o gordo, e quem lhe deu o tiro, supostamente, fui eu!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Capítulo 26 (Paradoxo Em Negro)

 “Como?”, pergunta o gordo, nitidamente desconcertado.
            “Quem é o senhor? Como é que se chama?”
            “Desculpe?”, atira o gordo. Para além de desorientado, noto agora uma ponta de indignação a elevar-se da sua voz.
            Tenho de admitir que por esta não esperava. Embora eu passeie no meu subconsciente, este recusa-se a dar-me imediatamente o que desejo. Aparentemente, sou obrigado a regatear com a minha própria mente para que esta me faculte os dados de que necessito. 
            “Eu é que peço desculpa”, acrescento rapidamente. “Realmente, por vezes esqueço-me das minhas maneiras.”
 

            Toda a minha vida fui um assassino contratado. E um bom assassino não se mede somente através da boa pontaria ou do sangue-frio com que executa as suas missões. Todos os factores contam. A arte de ludibriar as pessoas, colocando-as à-vontade e fazendo com elas nos passem informações sub-repticiamente é também importantíssima. Arte essa – e digo-o com uma certa dose de satisfação – que domino na perfeição, como se me a tivessem ensinado exaustivamente na escola.
            Invento o primeiro nome que me passa pela cabeça:
            “João Ribeiro. Faço parte da área de marketing de uma empresa de telecomunicações, e fui enviado para uma convenção a ter lugar no Parque das Nações. É por isso que estou no comboio.”
            Disse tudo de uma assentada, estendo rapidamente a mão para o gordo não ter tempo de resposta. Este retribui o gesto timidamente, ainda claramente confuso com toda a situação.
            “Ah, certo…”
            “E a razão pela qual o abordei deste modo… intempestivo”, afirmo, fingindo procurar o vocábulo certo. “O senhor trabalha também para uma empresa de telecomunicações, certo? A sua cara não me é nada estranha. Tenho quase a certeza que já o vi. O senhor foi à FIL do ano passado?”
            Finalmente, uma expressão de compreensão por parte do gordo, acompanhada com um ligeiro sorriso de alívio por ver que não sou um maluco qualquer.
            “Decerto está a confundir-me com alguém”, explica o gordo educadamente. “Não trabalho para nenhuma empresa de telecomunicações, nem nunca fui a nenhuma FIL.”
            “Não pode ser!”, exclamo dramaticamente ao mesmo tempo que gracejo amigavelmente. “Mas então de onde é que o conheço? Costuma vir muitas vezes a Lisboa? É de cá?”
            Ao ver o sorriso simpático do gordo, soube imediatamente que as probabilidades de obter o que queria estavam do meu lado. Libertando na totalidade a sua postura outrora defensiva, o gordo instala-se confortavelmente na sua cadeira.
            “Por acaso até costumo vir a Lisboa algumas vezes”, diz este com um encolher de ombros. “Por questões também profissionais, mas o meu ramo de trabalho é bastante diferente do seu”, acrescenta descontraidamente.
              “Posso perguntar-lhe o que faz?”, pergunto inocentemente, sem deixar cair a minha máscara de amabilidade. “Já vi que o confundi com alguém, mas como a viagem ainda é grande… se o estiver a importunar diga, que eu calo-me.”
            Xeque-mate. 
            “Não, claro que não”, responde o gordo automaticamente com um novo sorriso. “Com a confusão do início nem me apresentei devidamente. António Marques. Trabalho por conta própria numa loja de…”
            Obviamente, nem me digno a ouvir o resto da sua frase. Já tenho o que quero. Finalmente o rosto do gordo ganha um nome. 
            Já não preciso de teatros e a minha face volta a ser neutra, embora mostre um sorriso vitorioso. O gordo exibe novamente uma confusão imensa, quando me vê levantar abruptamente em direcção à casa de banho da carruagem.
            Mas isso é-me já totalmente indiferente.