Fito a janela por uma última vez e abano a cabeça. Impossível. O nervosismo toma cada vez mais conta de mim. Inspiro bem fundo e dobro-me, de forma a alcançar a zona do tornozelo. Quando volto a erguer-me, trago já comigo a minha fiel Magnum de 22mm. Coloco-a no bolso do meu casaco e aponto o seu cano directamente para a porta da casa de banho. Espero agora por mais pancadas, sabendo que esse será o sinal para avançar.
Mais três impactos ecoam no cubículo que me sufoca. Sem hesitações e com o dedo premido contra o gatilho, destranco a porta e abro-a violentamente, olhando freneticamente em todas as direcções. Meu Deus. Noto apenas que tenho o queixo descaído e que perco a força na minha mão. O que se passa comigo?
Não estou já no interior da carruagem. Encontro-me antes num vistoso átrio daquilo que penso ser um hotel. Atónito, recuo alguns passos e sinto uma porta a acompanhar o peso que faço com as costas. Olho por cima do ombro e vejo que se trata da porta de uma casa de banho do hotel. Perplexo, varro o espaço com a vista. A agora inexistente trepidação do comboio atordoa-me os sentidos. Reparo também que a música natalícia foi substituída por uma melodia típica de um lobby de hotel.
“O Senhor parece bastante nervoso. Há algo que possa fazer por si?”, perguntou uma voz junto de mim.
Concentro a custo as minhas atenções num funcionário do hotel. Contudo, não respondo. Limito-me a deixar cair a Magnum no fundo do bolso e afasto-me dele tropegamente. Não sei para onde me dirijo, pois esta situação utópica tolda-me o discernimento. Atravesso o átrio e quando dou por mim, encontro-me num bar calmo e discreto.
Povoado apenas por duas ou três pessoas que para mim não passam de vultos. Percorro as mesas vazias acabando por me sentar numa, recosto-me e tento rever na mente os últimos minutos do meu dia, procuro uma explicação. Estarei a alucinar?
Revejo todos aqueles cartazes de prevenção à droga, penso em LSD, em anticolinérgicos e metilenodioximetanfetamina, e penso que não tomei nenhuma delas. O meu coração dança a um ritmo frenético no meu peito, metendo a mão no bolso lembro-me de travar a arma. O som parece chamar à atenção de um dos clientes do bar que me fita desconfiadamente, ignoro-o e vasculho nos bolsos em busca da carta, não a encontro. Tento concentrar-me, tento lembrar-me de tudo de novo, eu sei que tinha a carta comigo, mas também sei que entrei na casa-de-banho de um comboio e agora estou num hotel...
Subitamente todo o bar é inundado por uma música ensurdecedora, que parece vir do exterior, levanto-me e espreito pela janela avistando uma espécie de orquestra itinerante, que atravessa a rua tocando numa marcha lenta e desanimada que ironicamente se contrapõe ao animado ritmo da música. Olho em volta e reparo que nenhum dos presentes se inquietou, todos permaneceram imóveis, como que habituados àquela situação.
O som da trompete invade-me os ouvidos criando um zumbido insuportável, de soslaio reparo que o empregado do bar se arrasta até mim, finjo não o ver:
“O que vai desejar senhor?”
“Nada obrigado!”, respondo pesadamente.
“Nem um digestivo, para ultimar a sua refeição?”
A custo viro-me para ele tentando compreender a sua afirmação, aliás preparava-me mesmo para o questionar sobre ela quando percebo que o conheço, analiso a sua face durante mais uns instantes... Sim é ele, mas não pode ser...Mas não há dúvida, é mesmo, aquele empregado é o homem gordo que há minutos atrás estava sentado ao meu lado no comboio.
O som da trompete invade-me os ouvidos criando um zumbido insuportável, de soslaio reparo que o empregado do bar se arrasta até mim, finjo não o ver:
“O que vai desejar senhor?”
“Nada obrigado!”, respondo pesadamente.
“Nem um digestivo, para ultimar a sua refeição?”
A custo viro-me para ele tentando compreender a sua afirmação, aliás preparava-me mesmo para o questionar sobre ela quando percebo que o conheço, analiso a sua face durante mais uns instantes... Sim é ele, mas não pode ser...Mas não há dúvida, é mesmo, aquele empregado é o homem gordo que há minutos atrás estava sentado ao meu lado no comboio.
O meu primeiro impulso é o de arrastar a cadeira para trás e erguer-me, porém uma fraqueza desconcertante apodera-se dos meus joelhos. Lívido, observo o homem gordo de alto a baixo. O pequeno bigode desenhado na pele baça. As pregas de gordura que deslizam por baixo do queixo em direcção ao pescoço. Os olhos injectados de sangue com as pálpebras descaídas. Tudo neste homem é detestável.
“Quem é o senhor? O que quer de mim?”, atiro repentinamente para ele, que se recusa a perder a sua compostura por um momento que seja.
“Desejo somente servi-lo”, diz, com uma leve vénia. “Aconselho vivamente que se decida brevemente. O tempo escasseia.”
Sentido. Tudo carece de sentido. Os meus olhos esgazeados saltam do homem gordo para o resto clientela, dispersa no espaço lúgubre. Tenho esperança de encontrar um sinal indicador de que tudo isto não passa de uma brincadeira de mau gosto. Por outro lado, noto que a música da banda que toca lá fora se torna cada vez mais penetrante.
“Eu… eu…”, balbucio desajeitadamente. “Que quis dizer quando…”
“Muito bem, senhor”, responde o gordo. “Será então um Whisky duplo.”
Atónito, vejo-o a afastar-se asquerosamente com umas passadas lentas e pesadas. Desaparece por uma discreta porta atrás do balcão do bar. A maldita música está cada vez mais forte. Tenho a vontade instintiva de tapar os ouvidos com as mãos.
Quando estou prestes a fazê-lo, prendo os meus movimentos. A música parou. Aliviado, levanto-me e espreito novamente pela janela. Um novo murro no estômago e o pânico a alastrar pelas minhas veias, uma vez mais. Toda a banda, cujos membros se moviam como marionetas desengonçadas, estagnou na rua. Todos aqueles olhos mortiços concentram agora a sua atenção na janela por onde espreito.
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