Enquanto caminho pela terra seca e absorvo sofregamente os bafos de fumo do meu cigarro, novas ideias afluem na minha mente, trazidas pelas ondas do meu desassossego.
Dificilmente serei apanhado. Isso será a única certeza capaz de combater o estado de preocupação latente que me assombra o pensamento. Contudo, embora sinta que a minha liberdade não está ameaçada, um friozinho miúdo persiste no meu estômago. Existem ainda demasiadas questões por explicar.
O episódio horripilante do hotel está ainda por resolver. Tudo o que eu vi foi demasiado real para ser um sonho ou uma simples alucinação. Será que o gordo tentou passar-me alguma mensagem dentro daquele bar soturno? Mas isso não faz qualquer sentido, visto que podia muito bem tê-lo feito do seu banco no comboio. E por muito que eu puxe da imaginação, é impossível conceber uma teoria que explique como é que atingi o gordo com um tiro.
Puxo uma última vez pelo cigarro, atirando-o de seguida para o lado, e expelindo uma derradeira baforada de fumo. Retiro uma vez mais o malfadado envelope que me arrastou para este pesadelo. Este seria o meu último trabalho, que ditaria o afastamento permanente desta profissão. Se é que se pode chamar profissão à actividade que pratico há já alguns anos.
É imperativo concentrar novamente a minha atenção no meu alvo. Neste ramo, não posso simplesmente dizer ao meu patrão que não consegui cumprir o objectivo pretendido. É agora necessário encontrar uma maneira de lá chegar.
Os meus olhos percorrem a planície árida que me rodeia, o frio intensifica-se e percorre-me os ossos. Dou por mim a pensar que estou completamente perdido, quer no espaço, quer na percepção. Tudo se resume a esta espécie de purgatório, desconhecendo tudo o que se passa comigo, onde estou, o que fazer.
Tento alargar as passadas, preciso de uma referência algo que me permita comunicar a alguém onde estou. Subitamente o vento intensifica-se acompanhado de um som ensurdecedor que lembra placas de madeira a bater, vejo erguer-se nos céus um helicóptero médico.
As luzes invadem todo aquele espaço, agacho-me na areia e deixo-me ficar quieto, o helicóptero aproxima-se do chão e percebo que o mesmo vai aterrar. Dou por mim a questionar qual a necessidade de fazer isto, não encontro resposta, mas mantenho-me assim até o helicóptero parar totalmente.
Enfio a mão no bolso e tiro o telemóvel, procuro um nome, o nome, aquele nome, não queria nada revelar-lhe agora o quão atrasada está a minha missão, mas receio não ter outra hipótese, só ele me pode ajudar agora e tirar-me daqui. O telefone dá um primeiro toque e sinto um arrepio a atravessar-me a espinha, o segundo toque antecede um terceiro, mas não chega a existir um quarto, do outro lado a voz rouca que tão bem conheço exclama:
“Então pá tudo bem? Isso já está tratado?”
Hesito, olhando para o horizonte. O dia caminha rapidamente para a noite. Onde antes habitava um Sol quente e vigoroso, deambula agora uma luz frouxa e alaranjada.
“Fui afectado por alguns problemas”, respondo simplesmente, olhando por cima do ombro em direcção ao helicóptero.
Durante breves segundos sou levado a pensar que a ligação caiu. Com o seu silêncio incriminatório, o meu contacto parece instigar-me a explicar o que sucedeu. Por motivos óbvios, conto apenas aquilo que não extravasa a realidade.
“Houve um incêndio no comboio. Este foi obrigado a fazer uma paragem de emergência”, continuo a dizer para o altifalante do telemóvel, tentando manter agora uma voz neutra.
“Não faço a menor ideia de onde me encontro. Sei apenas que devo ter feito duas horas de comboio. Mais quinze minutos a pé, junto ao carril”, remato por fim.
Uma nova onda de silêncio. Contudo, esta falta de resposta pode muito bem dever-se à confusão do meu contacto. O que ele finalmente pergunta demonstra que acertei no meu palpite:
“Mas porque não ficaste junto ao comboio? Seria muito mais fácil alguém ir buscar-te…”
Inspiro fundo.
“O incêndio foi culpa minha”.
“E queres explicar porquê?”, questiona a voz rouca do meu contacto, mostrando agora alguma irritação.
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