Os Autores

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Paradoxo Em Negro (Capítulo 7)

 Hesito por uns instantes antes de responder. “É uma situação complicada, eu explico melhor depois...”
 “Não, vais-me explicar agora.”
 Permaneço em silêncio, tento escolher as palavras certas, tento medir aquilo que posso dizer, não me dava jeito nenhum que ele agora se convencesse da minha loucura tal como eu já me convenci:
 “Houve um acidente.”
 Do outro lado a paciência é cada vez menor, noto-o a cada palavra, a cada suspiro:
 “Que tipo de acidente?”
 Subitamente sinto-me como se tivesse entrado num daqueles concursos televisivos, toda uma plateia a fitar-me à espera de uma resposta certa. Aqueles concursos que a vida imita, ou que imitam a vida depende da perspectiva. Encontramos concursos desses todos os dias, em todo o lado, plateias gigantes em espera de uma resposta que também elas não sabem se será a mais correcta.
 Plateias que podem ser apenas de uma pessoa, mas sempre ansiosas por conhecer o nosso próximo passo. Aceita esta mulher como sua legítima esposa, na pobreza, na riqueza, na saúde e na doença até que a morte os separe? É aí, Horário nobre da televisão, toda a gente suspende a respiração à espera da resposta certa, alguns desejam no íntimo que a resposta seja a menos esperada só porque isso iria animar as coisas.
 Vai fazer este negócio? Vai aceitar este emprego? Vai comprar este carro? Vai começar esta guerra? Vai invadir este país? Vai matar esta pessoa? As perguntas emocionam-nos muito mais que as afirmações...

            Oiço a respiração acelerar do outro lado do telefone... Para 100 mil euros:
 “Eu matei um homem.”
 Do outro lado o silêncio ocupa o espaço deixado vazio pelos aplausos do meu concurso imaginário.
 “Que homem?”
 Aí está, para 200 mil euros.
 “Não sei, seguia ao meu lado.”
 “Ao teu lado?”
 “Sim, no comboio.”
 Mais silêncio, mais um suspiro...
 “Tu mataste um passageiro do comboio...Tu...tu enlouqueceste?”
 Finalmente… One Million Dollar question... e a resposta é...
 “Não sei.”
 Do outro lado, a linha volta a emudecer. Porém, verbalizar desta maneira o que realmente sinto desde o comboio, traz efeitos benéficos à minha mente. Não sei se estou louco. Não faço a mais pálida ideia. Mas dizê-lo em voz alta ajuda-me a acalmar. O meu coração, que palpitou bruscamente durante toda a conversa com o meu interlocutor, oferece agora indícios de querer abrandar o seu ritmo. O meu próprio raciocínio retorna à normalidade.

            “Por que razão o mataste? Quem era ele?”, pergunta finalmente o auscultador do telemóvel.
 Mais uma pergunta difícil. Vislumbro novamente o público, escondido nos recantos da minha mente, a entreolhar-se expectante na sua plateia lúgubre.
 “Não sei quem era”, replico automaticamente à questão cuja resposta se encontrava na ponta da língua.
 Contudo, falta ainda oferecer uma réplica satisfatória quanto à razão de o ter morto. Eu sei bem porque motivo matei o gordo. Mas sei também que admiti-lo seria dar rédeas soltas à minha loucura. Tenho de jogar pelo seguro.
 “E matei o passageiro… porque ele colocou em risco a minha missão”, acrescento evasivamente.
 “Como assim?”, indaga a voz rouca do outro lado. “Era um agente inimigo?”
 “É provável.”
 “Bom, sendo assim não fizeste mais que o teu dever.”
 Noto pela primeira vez um toque de satisfação vindo do meu contacto.
 “És capaz de me dizer exactamente onde estás? Com uma localização específica sou capaz de mandar alguém para te ir buscar.”

             Aliviado, olho em volta. Pouco mais há para referenciar do que areia, plantas e algumas pedras, ao fundo as pessoas continuam fora do comboio, o helicóptero continua à espera para recolher o gordo (pelo menos deduzo que sim porque ainda não levantou) e o comboio continua parado.
 “Estou a aproximadamente dois quilómetros do comboio que está parado, seguia para o local agendado, e devemos estar a menos de uma hora do mesmo.”
 Do outro lado, as palavras são repetidas lentamente como se alguém as estivesse a apontar, instantes depois o telefone exclama:
 “Muito bem, não saias daí.”
 A chamada desliga-se e eu baixo-me devagar em direcção à areia, o frio que eu esquecera durante toda a conversa lembra-me agora da sua presença. Não posso evitar sentir alguma satisfação, aquela que vem quando sentes que as coisas se estão a repor, e que calmamente a tua vida se vai arrumando nas prateleiras onde é suposto as vidas estarem arrumadas.
 Recomeça o barulho intenso do helicóptero, vejo-o a levantar, o gordo já lá deve ir. A aeronave, mantém-se a uma baixa distancia e vai avançando para norte. Baixo-me para que as luzes não me foquem, o helicóptero passa mas pára um pouco mais à frente. O vento atira-me com areia para os olhos e para a boca, tento levantar a cabeça mas não sou capaz. O helicóptero baixa e aterra a poucos metros de mim, saindo de dentro dele um homem novo, vestido como todos os paramédicos se vestem. Dá dois passos aproximando-se de mim e esticando um dedo magrinho na minha direcção, diz:
 “Você, venha!”

Sem comentários:

Enviar um comentário