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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Paradoxo em Negro (Capítulo 4)

Embora os meus olhos insistam em afirmar que o que vejo é real, o meu discernimento tarda em aceitá-lo como tal. Tudo chega aos meus cinco sentidos de um modo turvo e vacilante. Vejo as pessoas à minha volta a gritar em pânico, mas aquilo que os ouvidos percepcionam é apenas um eco fraco e tremido. Até o seu andar parece pouco natural, como se uma força desconhecida e arrebatadora aprisionasse os movimentos dos passageiros do comboio.
No meio desta agitação, inclino o pescoço e olho novamente para o gordo, entretanto arrastado para o corredor da carruagem por algumas pessoas. Deitado no chão, e com uma multidão à sua volta, consigo vislumbrar apenas a sua face. O olhar desfocado e rosto totalmente pálido dizem-me o pior.
Sinto o coração a querer escapar pela garganta. Impossível que o gordo tenha sido baleado, visto que apenas disparei a arma num sonho. Mas… e se não foi sonho? Então, que experiência transcendente e horrífica vivi durante todo aquele tempo?

            Num momento de súbita inspiração, decido fazer a prova dos nove. O mais discretamente possível, e sabendo que estavam todos absortos no gordo, levo a mão ao bolso e abro o carregador da minha Magnum. Trazendo a arma ligeiramente para fora, sinto uma onda de náusea a explodir no meu estômago. A arma tem um carregador para cinco balas. Sobejam apenas quatro.
 Pânico. Não tardará muito para que seja abordado. Afinal, todos os passageiros viram que o gordo estava sentado ao meu lado. É imperativo sair daqui imediatamente. Debruçar-me-ei depois sobre o tiro disparado.
Rodo o corpo sobre o assento e dou um pequeno impulso para a frente. O que vejo projecta-me novamente para trás e gela-me a espinha. O gordo, rodeado de gente, fita-me com um olhar parado e um sorriso sádico. Grito e aponto para ele, porém mais ninguém parece reparar naquilo que somente eu consigo observar.

            Os seus olhos arregalam-se para mim ao mesmo tempo que a sua boca se enrosca numa curva ligeira, depois levantando ligeiramente o braço aponta na minha direcção. Eu viro-me e ando no sentido oposto, mas oiço-o murmurar “lembras-te da chuva?”, volto-me de novo e ele está imediatamente atrás de mim lançando-me uma mão ensanguentada, começo a correr em direcção à porta que ligava as carruagens, detenho-me nela mas esta não abre.
            Aplico toda a força na maçaneta, oiço-o aproximar-se e vou batendo na porta com mais força, tento rodar a maçaneta de todas as formas que conheço e oiço os passos dele mesmo atrás de mim, pontapeio à porta algumas vezes sem qualquer resultado, atrás de mim ele pára e sinto uma mão no ombro. Ao virar-me deparo-me com um homem assustado que me pergunta: “o que está a fazer senhor?”. Ofegante digo-lhe: “esta porta não abre.”.
            Ele responde-me: “pois não, o comboio está parado e todas as portas foram seladas até chegar a polícia, por causa daquele senhor que levou o tiro” o seu indicador estica-se em direcção ao gordo que afinal continua deitado no chão.

            Pisco os olhos e reprimo o desejo de abanar a cabeça, fruto do choque que é ver o gordo inanimado na carruagem, quando ainda há segundos atrás me perseguia com uma mão submersa em sangue. É estritamente necessário conservar agora uma postura que não dê nas vistas, visto que quanto menos pessoas repararem em mim, mais possibilidades de fuga terei.
Sento-me no banco que está ao lado da porta trancada e tento controlar a minha respiração, ainda ligeiramente ofegante. Tenho de colocar as ideias no sítio.
A polícia encaminha-se para o comboio. Esse é um dado incontestável. Como é óbvio, será crucial que eu não seja visto. Para além de ter a arma que me pode interligar a um crime, tenho também pertences nas minhas bagagens que não podem de modo algum ser encontrados. Mas como é que conseguirei escapar da carruagem antes de a polícia chegar?

            Pressiono os olhos com os dedos das mãos. Estava longe de imaginar que uma missão tão simples como esta, se pudesse tornar tão complicada. Olho em redor com um cuidado redobrado.
As portas estão trancadas, mas terão de ser abertas para a polícia entrar, e muito possivelmente também para os médicos. Suponho que uma ambulância tenha sido igualmente chamada. Poderei aproveitar esse momento para tentar fazer algo.
Fito as janelas da carruagem. Facilmente despedaçáveis, contudo isso desviaria toda a atenção para mim. Só se uma circunstância crítica me obrigar a tal. Rodo depois a cabeça para o meu lado esquerdo e fito a casa de banho. Sinto um arrepio no corpo. Seja qual for a solução, espero que esta não passe por lá voltar.
O tempo urge e tenho de tomar uma decisão, caso contrário as coisas podem correr muito mal para o meu lado. 




Perante um situação destas, o que deve este homem fazer? Pela primeira vez, Paradoxo Em Negro recorre aos seus leitores. Tenha em conta as circunstâncias do espaço e as possibilidades que o mesmo oferece.
ESTES comentários não serão publicados. Será depois escolhido aquele que melhor se enquadrar no contexto da narrativa, para dar continuidade à nossa história, com os respectivos créditos.

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