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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Paradoxo Em Negro (Capítulo 3)

 Lembro-me do John Carpenter e dos seus zombies e afasto-me da janela. Do outro lado a banda continua a fitar-me imóvel. E se forem mesmo zombies... aí sou invadido por um rasgo de clarividência, não me posso deixar invadir por esta loucura, por este marasmo de irracionalidade onde pareço ter mergulhado, não existem zombies, não existem lapsos temporais em que se muda de local por artes mágicas, ou estou a alucinar, ou estou a sonhar ou então simplesmente estou muito confuso.
 Fito um dos homens da banda, o que está na frente e grito: “O que querem? O que se passa?”
 Virando-me para trás grito para todo o bar: “O que se passa com todos vocês, quem são vocês, o que querem de mim?”
 Todos levantam a cabeça e ficam a olhar para mim, não escondendo a sua surpresa... o Gordo, outra vez o gordo, sai detrás do balcão e aproxima-se:
 “O senhor devia acalmar-se”, dou dois passos em direcção a ele e colocando o indicador a um palmo do seu nariz grito: “ Você, quem é você, porque é que me anda a seguir, porque é que está em todo o lado...”

 O meu discurso é interrompido por uma intensa gargalhada colectiva, olhando em volta reparo que todo o bar (agora bastante mais repleto do que quando entrei) se ri, atrás de mim também a banda lança fortes risadas, acotovelando-se e apontando como se de um louco eu me tratasse. Até o gordo solta largas gargalhadas enquanto se engasga.
 A minha respiração torna-se descompassada, fortemente dominada por estes risos infernais que fustigam a minha alma como ecos do outro mundo. Cada gargalhada gera uma convulsão aterradora nos meus sentidos. Quero que eles parem. Preciso que parem. Dou dois passos atrás e lanço as mãos aos ouvidos. Sinto o coração preso na garganta. Com os ouvidos tapados as gargalhadas são ainda maiores. O maldito gordo tem agora o rosto encarniçado e contorcido de tanto rir. Por favor, eles têm de parar.
 À beira do desespero, faço aquilo que o meu instinto ordena. Projecto a mão para dentro do bolso do casaco e trago o meu mediador para me auxiliar nesta situação. Terei finalmente o controlo que me tem escapado.
 Vitória.

 O “clique” reconfortante da minha arma gera o silêncio, qual batuta que conduz esta banda diabólica e demente. Respiro bem fundo.
 “Muito bem”, digo, num tom de voz pretensiosamente tranquilo. “Repito a minha pergunta. Quem são vocês e o que diabo querem de mim?”
 Embora tenha cessado com os risos enlouquecidos, cedo descubro que um horrível desassossego continua a circular nas minhas veias. Olhos reveladores de uma superioridade absoluta cravam-se na minha pele. Os clientes do bar erguem-se das suas cadeiras e apontam o rosto na minha direcção. No exterior, a banda aderiu ao silêncio. Noto apenas um leve sibilar entre os seus membros.
 Uma leve tossidela a cinco metros de mim corta a mudez deste quadro aberrante. Rodo automaticamente a Magnum para lá.
 “Por favor, sente-se”, declara o gordo, apontando com descontracção para a mesa em que eu estivera.
  “Dê-me uma boa razão para isso”, murmuro, marcando a sua testa com a minha mira.
 Finalmente um traço de hesitação. O gordo parece fazer algum tipo de equação mental, dando a impressão de que se encontra indeciso. Ainda assim avança na minha direcção esticando o indicador em direcção ao vidro: “Não pode fazer isso, se o fizer...”
 “Se o fizer... o quê?” pergunto agitando a arma à sua frente.

 O gordo pára, o seu semblante treme, pela primeira vez a sua expressão muda drasticamente, torna-se evidente, ele está com medo. Agora sou eu quem dita as regras, agora a bola está do meu lado. O Gordo recua apoiando-se no balcão e repete:
 “Você não pode fazer isso... se o fizer...” o dedo do gordo continua esticado, como se crescesse em direcção ao vidro. A minha Magnum mantém-no focado, e o gordo continua... “Se você fizer isso... começará a chover.”
 Subitamente todos os elementos da banda começam a correr, gritando e empurrando-se mutuamente, alguns caem sendo em seguida pisados pelos restantes que sem qualquer hesitação lhes passam por cima, os gritos afinam-se pelo som dos instrumentos a partirem-se no chão.

 Tremendo fixo de novo o gordo que permanece imóvel, atrás de mim cada vez mais gritos apenas interrompidos por um súbito trovão, oiço os vidros a estilhaçarem, as mesas a tremerem, percebo que a janela atrás de mim se desfez com o impacto do som de repente o gordo começa a correr na minha direcção, fecho os olhos e a minha Magnum dispara.....
 Ao abrir os olhos, estes demoram a adaptar-se à luminosidade, reparo que estou no comboio, sentado no meu lugar com o envelope na mão, ao meu lado está o mesmo gordo, de face pálida e impassível. Recosto-me tentando despertar daquele estranho sonho, mas sinto a perna húmida, ao olhar para as calças percebo que estas estão molhadas, molhadas de sangue.

 Olho para o gordo e percebo que é ele a fonte do mesmo, levanto-me subitame0nte, a trepidação do comboio parece intensificar-se sem motivo aparente, observo o gordo que sangra do peito. Atónito olho em volta à busca de ajuda, ou de uma saída, uma mulher apercebe-se e saltando do banco vai agarrar na mão do gordo, ao aproximar-se dele pára e grita: “Alguém acuda, este homem levou um tiro.”

1 comentário:

  1. O melhor capítulo até agora, adorei, continuem o bom trabalho!

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