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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Paradoxo Em Negro (Capítulo 8)

 Mesmo com o helicóptero em terra, a força da hélice a girar a quatro metros do chão continua a lançar várias porções de areia contra o meu rosto. Sou obrigado a erguer o braço ao nível dos olhos para conseguir fitar o paramédico que saiu da aeronave. Por outro lado, o ruído que o helicóptero produz é ainda excessivamente elevado para poder falar normalmente. Assim, grito na direcção dele:
            “Identifique-se!”
            Não sei se fui entendido. O paramédico elabora um sorriso afectado e elabora vários acenos persuasivos, indicando claramente para que eu entre no helicóptero. Permaneço desconfiado. Tudo isto parece demasiado oportuno. Estou já suficientemente calejado no meu trabalho para acreditar em benesses que vêm literalmente do céu.
            Ao observar que eu me mostro reticente em avançar para o helicóptero, o paramédico faz sinal com os braços para eu esperar. Depois, lança bruscamente as mãos ao interior da sua farda de salvamento. Sinto um ligeiro murro no estômago. Jogo igualmente a mão ao bolso do meu casaco, lembrando-me de seguida que fiz desaparecer a minha Magnum no comboio. Se este indivíduo decidir usar uma arma para me meter no helicóptero, não terei qualquer hipótese de fuga.

Porém, quando os seus braços voltam a subir, estes trazem apenas um telemóvel. O paramédico digita algo em breves segundos, volta a meter o aparelho no bolso e, mais uma vez, diz gestualmente para eu esperar.
           Não percebo qual o seu objectivo. Sinto-me até ligeiramente tolo, ao contemplar o quadro como um todo. Cá estou eu, a esconder a cara para me proteger de sucessivas chapadas de areia, enquanto espero algo que desconheço, junto de um homem que não me inspira confiança alguma.
           Uma vibração na minha perna desperta-me a atenção novamente. Impulsivamente, arranco o telemóvel do meu bolso e leio a mensagem que recebi:
           “Entra no helicóptero. Esse homem pertence à agência.”

            Fito o homem, e avanço para dentro da aeronave, ele lança-me um olhar de desdém, ignoro e entro. Recosto-me no banco e suspiro, durante uns minutos deixo-me levar pela exaustão. Saboreio o leve sabor de conforto, deve ser aquilo que a maioria das pessoas sente em casa (nunca tive uma dessas).
           O Paramédico permanece em silêncio, reparo que no chão está o gordo deitado, mudo e inerte, sinto-me a ser invadido por uma estranha paz. Na minha profissão, tirar a vida a alguém não é nada de relevante. Neste caso concreto, este gordo já estava mesmo a chatear-me, não me importaria se não voltasse a acordar. Subitamente o suposto paramédico vem sentar-se a meu lado, aproxima-se do meu ouvido e segreda-me:
           “Vamos deixar-te no local onde terás de cumprir a tua missão.”
           Sou invadido por uma leve náusea, a missão! Porra! A missão. Vasculho os bolsos em busca do envelope, o paramédico acalma-me:
           “Não te preocupes, a informação actualizada irá ser-te enviada em breve.”

            Ele volta para o seu lugar, e eu para a minha ausência! Entrego-me ao conforto da desrealização e por uns instantes a minha mente apaga tudo. Esqueço o hotel, o gordo, o comboio, a banda. Sou interrompido pela vibração do meu telemóvel. Antes de o ver, o paramédico estende-me uma arma:
           “Vai-te fazer falta.”
           Olho para o monitor, e deparo-me com o sinal de mensagem recebida.


Mais informações em breve… Desta vez não será preciso esperar uma semana…

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