Capítulo baseado na ideia de João Filipe Almeida.
Agradecemos a participação de todos!
Agradecemos a participação de todos!
Os meus olhos percorrem todo o comboio, os passageiros atravessam agora as carruagens envoltos numa nuvem de medo. Tento reactivar os sentidos, fazer o que sempre fiz, é para isto que me pagam, para resolver problemas e sempre fui bom a fazê-lo. No chão o gordo continua a sangrar. À sua volta vão-se acumulando pessoas. Viro as costas e atravesso a porta que liga à carruagem seguinte, passo por um grupo de pessoas que discute o sucedido:
“São terroristas”, “O comboio vai explodir”, continuo a andar, o comboio torna-se cada vez mais pequeno, como que comprimido pelas constantes movimentações das pessoas.
Atravesso mais uma porta em direcção a outra carruagem, esta um pouco mais vazia, aproximo-me de um conjunto de quatro lugares onde não está ninguém e finalmente vislumbro a solução.
Retiro algumas revistas presas numa rede nas costas dos vários bancos e começo a rasgá-las. Outro grupo de passageiros passa por mim numa azáfama electrizante.
“Está morto, de certeza que está morto”. Empilho as folhas rasgadas em cima de um dos bancos. Dois miúdos aparentemente bêbados passam por mim,
“Acho que ele era um gajo desses da máfia, levou três tiros, e os gajos que o mataram já se piraram”.
Reparo então que na carruagem ao lado existe um bar, corro até lá, a carruagem está apinhada, mas não está ninguém a servir, contorno o balcão e retiro duas garrafas em miniatura de Vodka, um homem já idoso grita-me:
“Hei o que está a fazer!”. Ignoro-o e volto para a outra carruagem. Oiço-o pronunciar mais algumas palavras atrás de mim mas nem me preocupo em mirá-lo. Abro as garrafas e derramo todo o Vodka sobre os papéis que rasguei, coloco a mão no bolso e sinto um calafrio a percorrer-me a espinha ao tocar no cano da minha Magnum, a prova que me liga a tudo isto está aqui comigo.
Retiro um pacote de fósforos e acendo três de uma vez atirando-os em seguida para os papeis. Ergue-se uma enorme labareda. Rapidamente afasto-me dali e misturo-me com os passageiros no bar da carruagem ao lado, atrás de mim oiço alguns gritos.
Todo o ruído que reinava no comboio é interrompido pelo apito ensurdecedor do alarme de incêndio, segundos depois todos os chuveiros no tecto do comboio começam a cuspir jactos de água e tal como eu previ, as portas destrancam-se imediatamente.
Resta-me agora tomar partido da confusão que se vai gerar nos próximos segundos. Com as portas destrancadas, o primeiro impulso dos passageiros será o de sair para fora do comboio. Se tudo correr conforme espero, estará toda a gente lá fora quando a polícia chegar. E eu estarei já bem longe.
“Deixem passar! Isto vai explodir!”
“Socorro!”
“Rápido! Por aqui!”
As exclamações de pânico são já bem perceptíveis em todas as carruagens. Vislumbro um aglomerado de passageiros que forçam o caminho por entre o espaço apertado que os corredores oferecem. Um outro grupo, de um número muito menor, propõe-se a erguer o corpo do gordo, dividindo o seu peso por várias mãos. Arrastam-no depois em direcção à saída do comboio.
Agora que o caos está instalado, é altura de eu ter um papel mais proactivo na minha fuga. O fumo, o cheiro a queimado e os espirros de água começam já a ser desconfortáveis. Para além do mais, não sei quanto tempo tenho até a polícia chegar.
Por uma questão de segurança, caso esta chegue entretanto, tratarei imediatamente da minha inocência.
Corro para uma fila de passageiros que se empurra mutuamente para sair do comboio. Sei que estou protegido pelo seu pânico. Ninguém repara que tiro a Magnum do meu bolso, e que limpo a mesma com um pano para tirar as minhas impressões digitais. Recorro também a vários encontrões, mas apenas para ter a oportunidade de atirar a arma para dentro do bolso do homem que está à minha frente. Este não se apercebe absolutamente de nada.
Agora que não tenho nada que me ligue ao crime, espero pacientemente que a fila avance. Esboço um sorriso, ao pensar que dentro de minutos respiro o ar fresco lá de fora.
Por entre alguns empurrões consigo ir desbravando caminho até à porta. Cá fora a multidão divide-se, alguns que correm para longe do comboio, outros que se mantêm sentados junto ao carril e outros que continuam em torno do gordo.
Retiro o meu maço de tabaco do bolso, acendo um cigarro e vou caminhando junto ao carril, não sei onde irei chegar, mas isso não me impede de ir andando.
Epá muito bom mesmo! Sou fã!
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