Sinto o coração a palpitar, uma espécie de suor percorre-me o rosto. Cada vez duvido mais da minha sanidade.
O meu cérebro inicia uma contagem decrescente como se fosse desligar.
10
9
Quando parece que a razão deixou de ser uma certeza.
8
7
É o fim da lógica, já nem tudo tem uma explicação.
6
5
O razoável perdeu-se na noção de uma evidência que não há como explicar.
4
3
Quem é este gordo? Porque é que ele me persegue?
2
1
Será que sou eu que o persigo?
0
Sinto uma náusea, a invadir-me todo o corpo. Como se a minha alma se projectasse para um espaço exterior. Um caminho infinito, só me falta ver pinguins para ter a certeza que estou a alucinar. Tento focar-me de novo, tenho uma missão a cumprir.
Este é o caminho certo, o trilho para a minha reforma, a estrada que eu tão bem defini, não vai ser acabada por nenhum gordo. Inspiro fundo e concentro-me nos degraus, subo cada um deles devagar, evito emitir ruído. Os meus olhos parecem agora redefinir a realidade, aproximá-la daquilo que sempre foi a minha percepção do que é real.
Oiço as minhas solas a ecoarem no corredor, tento arrastar os pés para que o barulho diminua.
Detenho-me em frente á porta, a porta que me separa do gordo, do meu alvo e dos seus dois capangas. Olho em volta, preciso de um plano e isso nunca foi problema para mim. É disso que eu vivo, de arranjar planos.
Encosto o ouvido á porta, mas do outro lado chega-me apenas uma música abafada. Uma música que me é familiar. Demasiado familiar. Afasto-me da porta quando os meus olhos se encontram com um extintor, pendurado no andar superior. Galgo as escadas a correr, e retiro o extintor da parede, sou interrompido por um súbito aumento do ruído vindo do interior, a música invade todo o prédio, e eu vejo-me forçado a tapar os ouvidos com as mãos.
Encosto-me aos degraus e agacho-me, oiço os ferrolhos da porta a correrem, e deito-me encostando-me aos degraus para sair do ângulo de visão permitido pela porta. A música é agora ensurdecedora e eu sabia que a conhecia... A porta abre-se de rompante, e dela sai uma orquestra, a mesma orquestra que eu vi no hotel, a orquestra que se riu de mim. Mantenho-me deitado, enquanto os observo a descerem a escadaria, tocando alegremente.
Espero que a melodia tocada por aqueles instrumentos infernais se torne abafada pela distância. Noto também uma sensação incrivelmente desconfortável no corpo. Assim que me levanto das lajes frias do chão percebo porquê, ao observar as minhas roupas alagadas em suor. Se a visão da face grotesca do gordo, a espreitar pela porta foi capaz de abalar o meu espírito, então ver a maldita banda a passar por mim foi algo indescritível.
Inclino-me e jogo as mãos aos joelhos para normalizar a respiração. Estou a arfar, como se tivesse feito uma corrida particularmente longa e cansativa. Lentamente, e com o maior cuidado, volto a subir a lanço de escadas até ao andar do meu alvo. Espreito ansiosamente, apenas para me certificar de que a banda realmente desapareceu. Encosto-me à parede do corredor. Sinto as pálpebras pesadas e a arder, como se não dormisse há já vários dias seguidos.
O que é que se passa comigo?
A hipótese de que estou a ficar completamente maluco torna-se cada vez mais verosímil. O gordo devia estar morto. Mesmo partindo do pressuposto de que sobreviveu ao disparo, neste momento estaria num hospital. Nunca na mesma divisão que o meu alvo. E aquela banda… por que será que um grupo de músicos está a agitar tanto o meu sistema nervoso? Já nem falo do facto de eu achar que não são reais. Refiro-me à própria melodia. Sinto que esta penetra nas minhas veias e me corta a circulação, como se eu tivesse injectado em mim o pior veneno do mundo.
Tento abstrair-me de tudo isto com uma inspiração mais vigorosa. Não posso deixar que a minha insanidade me impeça de completar a missão. Não posso falhar uma segunda vez consecutiva. Isso seria o meu fim. Encosto o ouvido à porta uma vez mais, desta vez com o receio de voltar a sentir a banda. Nada. Apenas vozes sufocadas pelas quatro paredes.
Nem é tarde nem é cedo. Se eles estão distraídos, este é o momento ideal. Se for suficientemente rápido, nem saberão o que os atingiu. Vou buscar o extintor que ficara perdido no chão. Quando volto, rebento automaticamente com a fechadura da porta e iço a minha arma da cintura.
O meu maxilar descai e o meu braço perde a força. A sala encontra-se vazia. À excepção de uma mesa, uma cadeira, e o gordo que me fita tranquilamente, como se já me esperasse há imenso tempo.
O meu cérebro inicia uma contagem decrescente como se fosse desligar.
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Quando parece que a razão deixou de ser uma certeza.
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É o fim da lógica, já nem tudo tem uma explicação.
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O razoável perdeu-se na noção de uma evidência que não há como explicar.
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Quem é este gordo? Porque é que ele me persegue?
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Será que sou eu que o persigo?
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Sinto uma náusea, a invadir-me todo o corpo. Como se a minha alma se projectasse para um espaço exterior. Um caminho infinito, só me falta ver pinguins para ter a certeza que estou a alucinar. Tento focar-me de novo, tenho uma missão a cumprir.
Este é o caminho certo, o trilho para a minha reforma, a estrada que eu tão bem defini, não vai ser acabada por nenhum gordo. Inspiro fundo e concentro-me nos degraus, subo cada um deles devagar, evito emitir ruído. Os meus olhos parecem agora redefinir a realidade, aproximá-la daquilo que sempre foi a minha percepção do que é real.
Oiço as minhas solas a ecoarem no corredor, tento arrastar os pés para que o barulho diminua.
Detenho-me em frente á porta, a porta que me separa do gordo, do meu alvo e dos seus dois capangas. Olho em volta, preciso de um plano e isso nunca foi problema para mim. É disso que eu vivo, de arranjar planos.
Encosto o ouvido á porta, mas do outro lado chega-me apenas uma música abafada. Uma música que me é familiar. Demasiado familiar. Afasto-me da porta quando os meus olhos se encontram com um extintor, pendurado no andar superior. Galgo as escadas a correr, e retiro o extintor da parede, sou interrompido por um súbito aumento do ruído vindo do interior, a música invade todo o prédio, e eu vejo-me forçado a tapar os ouvidos com as mãos.
Encosto-me aos degraus e agacho-me, oiço os ferrolhos da porta a correrem, e deito-me encostando-me aos degraus para sair do ângulo de visão permitido pela porta. A música é agora ensurdecedora e eu sabia que a conhecia... A porta abre-se de rompante, e dela sai uma orquestra, a mesma orquestra que eu vi no hotel, a orquestra que se riu de mim. Mantenho-me deitado, enquanto os observo a descerem a escadaria, tocando alegremente.
Espero que a melodia tocada por aqueles instrumentos infernais se torne abafada pela distância. Noto também uma sensação incrivelmente desconfortável no corpo. Assim que me levanto das lajes frias do chão percebo porquê, ao observar as minhas roupas alagadas em suor. Se a visão da face grotesca do gordo, a espreitar pela porta foi capaz de abalar o meu espírito, então ver a maldita banda a passar por mim foi algo indescritível.
Inclino-me e jogo as mãos aos joelhos para normalizar a respiração. Estou a arfar, como se tivesse feito uma corrida particularmente longa e cansativa. Lentamente, e com o maior cuidado, volto a subir a lanço de escadas até ao andar do meu alvo. Espreito ansiosamente, apenas para me certificar de que a banda realmente desapareceu. Encosto-me à parede do corredor. Sinto as pálpebras pesadas e a arder, como se não dormisse há já vários dias seguidos.
O que é que se passa comigo?
A hipótese de que estou a ficar completamente maluco torna-se cada vez mais verosímil. O gordo devia estar morto. Mesmo partindo do pressuposto de que sobreviveu ao disparo, neste momento estaria num hospital. Nunca na mesma divisão que o meu alvo. E aquela banda… por que será que um grupo de músicos está a agitar tanto o meu sistema nervoso? Já nem falo do facto de eu achar que não são reais. Refiro-me à própria melodia. Sinto que esta penetra nas minhas veias e me corta a circulação, como se eu tivesse injectado em mim o pior veneno do mundo.
Tento abstrair-me de tudo isto com uma inspiração mais vigorosa. Não posso deixar que a minha insanidade me impeça de completar a missão. Não posso falhar uma segunda vez consecutiva. Isso seria o meu fim. Encosto o ouvido à porta uma vez mais, desta vez com o receio de voltar a sentir a banda. Nada. Apenas vozes sufocadas pelas quatro paredes.
Nem é tarde nem é cedo. Se eles estão distraídos, este é o momento ideal. Se for suficientemente rápido, nem saberão o que os atingiu. Vou buscar o extintor que ficara perdido no chão. Quando volto, rebento automaticamente com a fechadura da porta e iço a minha arma da cintura.
O meu maxilar descai e o meu braço perde a força. A sala encontra-se vazia. À excepção de uma mesa, uma cadeira, e o gordo que me fita tranquilamente, como se já me esperasse há imenso tempo.
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