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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Capítulo 13 (Paradoxo Em Negro)

 Durante breves momentos, consigo ainda manter a mira da arma na direcção da testa do gordo. Contudo, à medida que a minha mente assimila toda esta situação, noto que vou perdendo gradualmente a força no braço. Tento manter o cano da pistola apontado ao gordo, mas este vai descaindo aos poucos, até estar inutilmente virado para o chão.
            Quero falar, dizer qualquer coisa ao meu antagonista, ao homem que me persegue nos pesadelos e que faz desmoronar aquilo que eu considerava ser a realidade. Chego até a inspirar, mas no derradeiro momento não se soltam palavras da minha boca. Sinto-me completamente prostrado.
            E ele imita o meu silêncio, limitando-se a encarar-me com aqueles olhos semicerrados e mortiços. Sou obrigado a desviar o olhar para as quatro paredes incrivelmente brancas da divisão, como se tivessem acabado de ser pintadas. Não há uma única janela, ou porta para além daquela que eu quebrei para entrar. 
            Não há também qualquer peça de mobília. Apenas uma comprida secretária de pinho e uma alta cadeira onde o gordo se senta. Estas descansam sobre uma enorme tapeçaria encarniçada e com uns desenhos estranhos. Fora isso, não existe mais nada. Não consigo sequer adivinhar como é que esta divisão se encontra iluminada, pois não vejo nenhuma lâmpada que ofereça a luz que se espalha contra as quatro paredes.
            Mais estranho ainda, é o facto de na sala não se encontrarem os três homens que eu segui. O meu alvo e os seus dois guarda-costas levaram sumiço. Desapareceram de um sala que não tem quaisquer janelas ou portas, exceptuando a que eu usei para entrar. 
            Um leve pigarrear devolve-me ao quadro em que me encontro. Vejo um sorriso a esboçar-se nas feições do gordo.
           
             “Vais voltar a tentar utilizar isso para me matar?”, pergunta, apontando para a arma que carrego. “Ou admites a tua derrota?”
            Ignoro a questão, uma parte de mim começa a convencer-se que aquele gordo nem sequer existe. Uma parte de mim assegura-me agora que a minha visão já não capta o retrato mais exacto do mundo, tudo se assemelha agora a um novelo que entrelaça toda a antiga linearidade que antes compunha a realidade. Sou invadido por uma saudade, dos tempos em que o meu mundo se definia pela minha vontade, quando os dias eram previsíveis e cabiam no meu controlo. Quando saía de manhã para matar alguém e voltava à noite para casa, com uma agradável sensação de dever cumprido, quem me dera ter esses tempos de volta.
            O gordo consome todo o espaço com o olhar, não se fixa em mim, vai percorrendo os vários recantos como se cada detalhe o absorvesse. Não se preocupa em repetir a pergunta, nem se importa com a ausência de resposta da minha parte. 
            Sou de novo engolido pela questão que tem reinado em todos os meus dias ultimamente. E se eu tiver realmente enlouquecido. Deveria ir a um psiquiatra ou a um psicólogo. Lembro-me daquele filme, acho que se chamava Pânico. Volto a focar-me no gordo e na sensação de insignificância com que ele me deleita. E se ele só existir na minha mente? Caber-me-á a mim fazê-lo desaparecer? Fecho os olhos com muita força, tento viajar para aquele hotel onde estive da outra vez, tento desvanecer-me no ar… Sou interrompido por um murmúrio pesaroso do gordo: 
            “O que estás a fazer? Enlouqueceste?”

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