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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Capítulo 15 (Paradoxo Em Negro)

 Permaneço imóvel durante alguns instantes, movendo somente os olhos cuidadosamente. Coloco imediatamente de lado a ideia de que me enganei na porta. Depois de tudo o que já sucedeu, voltar a viver uma espécie de realidade paralela nem parece algo assim tão inverosímil.
            Desta vez, porém, tenho uma ligeira vantagem. Não estou totalmente desprevenido. Talvez… talvez… tentar até descobrir algo enquanto aqui estou? Se me controlar e não entrar em pânico, posso vir a retirar algum proveito da situação. Vou entrar neste jogo psicadélico elaborado por o meu maior oponente. E não me refiro ao gordo, mas sim ao meu cérebro. Penso que já não subsistem muitas dúvidas de que me resta pouca ou nenhuma sanidade mental. 
            À cautela, escondo a arma oferecida pelo piloto do helicóptero no bolso do casaco. Algo me diz que não vou precisar dela. Se isto for uma nova partida da minha loucura, o efeito prático de ter ou não uma arma é precisamente o mesmo.
 

            Inspiro fundo e debruço-me agora sobre o que vejo. O prédio soturno para o qual segui o meu alvo foi substituído por aquilo que penso ser uma opulenta mansão. Encontro-me precisamente no meio de um corredor comprido e extraordinariamente bem iluminado, graças aos raios de sol que entram por uma enorme janela que fica numa das extremidades do mesmo.
            Olho para trás e vejo apenas parede. A porta pela qual saí já não existe. Torno a vislumbrar ambas as possibilidades que o corredor oferece. Não vejo outra alternativa senão explorar o espaço para o qual fui transportado.
            Com um aceno para mim mesmo, começo a andar lentamente em direcção à janela. A luz é muito mais reconfortante que a área obscura da outra ponta do corredor. À medida que caminho, não deixo de notar como é desconfortável o som dos meus passos a fazer estalar a madeira do chão. Sinto que estou a quebrar o silêncio de algo que não deve ser incomodado.
            É com algum alívio que chego junto da janela sem que algo estranho tenha sucedido. 
            Lembro-me do hotel, lembro-me do gordo, ele estará aqui tal como estava no hotel, e desta vez vou esperá-lo, irei eu atrás dele em vez de esperar… Porque é para isso que aqui estou, todos estes subterfúgios servem para eu o encontrar.
          
            Vanglorio-me dos meus passos, agora seguros e confiantes e atravesso o corredor como o Rocky atravessa o túnel antes do combate, o ar limpa-me os pulmões por cada inspiração mais longa e forte. Só tens a certeza de ter realmente enlouquecido quando começas a aceitar as realidades ilógicas como verdades. 
            Quando mudas subitamente de um prédio para uma mansão e isso já não é questionado. Quando nada faz sentido mas tu vive-lo como se fizesse. É um bocado como aqueles putos dos filmes de terror, que caminham sempre em direcção ao barulho assustador: “Tommy is that you?” as pessoas normais fogem dos barulhos assustadores, mas eles não… procuram-nos, confrontam-nos. A única diferença é que eles não são loucos, são personagens, talhados para agirem como personagens. 
            Apesar de serem pessoas, naquele momento não passam de personagens e como tal comportam-se em conformidade. Eu estou bastante convicto de que não sou uma personagem, logo só me resta deduzir a minha loucura.
            Percorro duas escadarias em busca do gordo, chamo-o mas não obtenho resposta. A mansão é demasiado calma, mesmo para produto de uma mente louca. Atravesso uma arcada que me leva para outro átrio gigantesco com uma única porta, dirigo-me a esta, parece dar para uma espécie de um jardim interior sobrepovoado de vegetação. Abro-a e deixo-me embrenhar naquilo que mais parece uma floresta, as plantas tapam-me os olhos mas continuo a avançar, subitamente sou interrompido por um som familiar, um tiro e depois outro e em seguida há uma explosão e eu caio.
            Quando me levanto vejo três homens a correrem, vestidos como… como soldados, e ai apercebo-me que aquilo não é um jardim interior mas sim um cenário de guerra.

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