Toda a minha mente, toda a minha lógica resume-se agora a uma argamassa de ideias, cada vez com menos nexo, cada vez menos coerentes. Tudo se traduz numa sobreposição de imagens bordadas por flashes epilépticos e electrizantes. Os tiros continuam a repetir-em intervalos inferiores a três segundos. Perto de mim um grupo de soldados caminha rastejando.
Encosto-me a uma árvore e suspiro, tenho de conseguir sair daqui. Espreito para o horizontes tentando encontrar um caminho ou um abrigo. Umas fáceis contas de cabeça lembram-me que desde a ultima vez que estivera numa guerra se passaram 20 anos. Na altura até me safava bem, será que ainda não perdi o jeito?
Fecho os olhos quando me regressa a imagem daquela colina, em que quase todo o meu batalhão foi eliminado enquanto subiamos, um pequeno grupo de guerrilha escondido algures nas árvores foi-nos derrubando um por um, quando já eramos apenas uns trinta, conseguimos identificá-los, os que não matámos tornaram-se nossos prisioneiros. Lembro-me dos gritos de agonia que um deles libertou enquanto eu lhe arrancava um olho com um pequeno garfo. Lembro-me de não perceber a sua lingua mas de perceber que ele rezava, chorava e implorava. Lembro-me de não querer saber.
As minhas memórias são interrompidas por uma explosão seguida de pernas, cabeças, braços e outras partes do corpo humano que se espalham no ar, percebo que pertenciam ao grupo rastejante que passou por mim há pouco. Corro em direcção a um dos corpos (ou ao que resta dele) retiro-lhe a espingarda, presa junto ao que costumava ser o seu peito e mergulho para um monte de arbustos.
Com o coração a bater a freneticamente, deixo-me ficar quieto durante no meio das ervas desconfortáveis, recuperando o fôlego que perdi nestes momentos de profunda loucura. Noto que tenho os dedos das mãos brancos, tal é a força com que seguro a espingarda.
Os sons de um verdadeiro palco bélico continuam a retumbar nos meus ouvidos. Canhões, gritos agonizantes de dor, tiros de espingardas e o estrépito da areia a saltar com o impacto dos obuses. A conjunção de todos estes ruídos gera em mim algo de indescritível.
Não é por ver a minha vida ameaçada que neste momento me sinto perturbado. É por ter cada vez mais a certeza de que já vivi isto. Não me limito a imaginar uma batalha. Estou a experienciar novamente a guerra em que participei quando era ainda jovem. O que fez de mim o que sou hoje.
“Atenção ao flanco esquerdo”, sussurro para mim mesmo letárgico, segurando a espingarda enterrada na areia, como se esta fosse um apoio.
“Atenção ao flanco esquerdo!”
O eco da voz, vindo de uma trincheira, foi rapidamente abafado por várias rajadas de balas da linha inimiga. Ao grito de aviso sobrepôs-se um silêncio ornamentado com alguns clamores de puro desespero. Desabafos de quem devia estar morto, mas teve o azar de ficar apenas moribundo.
Levanto os meus olhos inflamados para o horizonte. Da última vez deixei-me ficar quieto, exactamente onde agora me encontro. Não apoiei os meus companheiros, tal como era a minha obrigação. Deixei-os morrer. Desta vez as coisas não se passarão assim.
Salto do emaranhado de arbustos nos quais me encontrava escondido, de espingarda em riste. Largo um berro de pura adrenalina e raiva, disparando sobre tudo o que se move. Este é a minha oportunidade de redenção. Corro desenfreadamente para a trincheira mais próxima de mim, depois de ter aniquilado uma boa porção de soldados inimigos, surpreendidos pelo meu ataque.
Encosto-me a uma árvore e suspiro, tenho de conseguir sair daqui. Espreito para o horizontes tentando encontrar um caminho ou um abrigo. Umas fáceis contas de cabeça lembram-me que desde a ultima vez que estivera numa guerra se passaram 20 anos. Na altura até me safava bem, será que ainda não perdi o jeito?
Fecho os olhos quando me regressa a imagem daquela colina, em que quase todo o meu batalhão foi eliminado enquanto subiamos, um pequeno grupo de guerrilha escondido algures nas árvores foi-nos derrubando um por um, quando já eramos apenas uns trinta, conseguimos identificá-los, os que não matámos tornaram-se nossos prisioneiros. Lembro-me dos gritos de agonia que um deles libertou enquanto eu lhe arrancava um olho com um pequeno garfo. Lembro-me de não perceber a sua lingua mas de perceber que ele rezava, chorava e implorava. Lembro-me de não querer saber.
As minhas memórias são interrompidas por uma explosão seguida de pernas, cabeças, braços e outras partes do corpo humano que se espalham no ar, percebo que pertenciam ao grupo rastejante que passou por mim há pouco. Corro em direcção a um dos corpos (ou ao que resta dele) retiro-lhe a espingarda, presa junto ao que costumava ser o seu peito e mergulho para um monte de arbustos.
Com o coração a bater a freneticamente, deixo-me ficar quieto durante no meio das ervas desconfortáveis, recuperando o fôlego que perdi nestes momentos de profunda loucura. Noto que tenho os dedos das mãos brancos, tal é a força com que seguro a espingarda.
Os sons de um verdadeiro palco bélico continuam a retumbar nos meus ouvidos. Canhões, gritos agonizantes de dor, tiros de espingardas e o estrépito da areia a saltar com o impacto dos obuses. A conjunção de todos estes ruídos gera em mim algo de indescritível.
Não é por ver a minha vida ameaçada que neste momento me sinto perturbado. É por ter cada vez mais a certeza de que já vivi isto. Não me limito a imaginar uma batalha. Estou a experienciar novamente a guerra em que participei quando era ainda jovem. O que fez de mim o que sou hoje.
“Atenção ao flanco esquerdo”, sussurro para mim mesmo letárgico, segurando a espingarda enterrada na areia, como se esta fosse um apoio.
“Atenção ao flanco esquerdo!”
O eco da voz, vindo de uma trincheira, foi rapidamente abafado por várias rajadas de balas da linha inimiga. Ao grito de aviso sobrepôs-se um silêncio ornamentado com alguns clamores de puro desespero. Desabafos de quem devia estar morto, mas teve o azar de ficar apenas moribundo.
Levanto os meus olhos inflamados para o horizonte. Da última vez deixei-me ficar quieto, exactamente onde agora me encontro. Não apoiei os meus companheiros, tal como era a minha obrigação. Deixei-os morrer. Desta vez as coisas não se passarão assim.
Salto do emaranhado de arbustos nos quais me encontrava escondido, de espingarda em riste. Largo um berro de pura adrenalina e raiva, disparando sobre tudo o que se move. Este é a minha oportunidade de redenção. Corro desenfreadamente para a trincheira mais próxima de mim, depois de ter aniquilado uma boa porção de soldados inimigos, surpreendidos pelo meu ataque.
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