Assim que me encontro relativamente protegido das balas inimigas, no interior da trincheira para a qual me atirei praticamente de cabeça, apresso-me a recarregar a minha espingarda. Partículas de areia não cessam de saltar para o meu rosto, fruto dos projécteis que caem junto do meu refúgio.
Com a minha arma novamente apta a disparar, não hesito em fazer passar o seu cano por cima da trincheira e a largar cegamente uma salva de tiros. A probabilidade de acertar em alguém é mais alta do que normalmente se imagina.
Arrisco-me depois a espreitar rapidamente para o horizonte. Preciso de ter uma noção mais ou menos exacta da minha situação. Contudo, com o aproximar da noite, veio também um denso manto de nevoeiro. Tudo o que percepciono são alguns vultos distantes. Será que com a neblina o inimigo decidiu retroceder? Os disparos inimigos parecem ter também abrandado.
Um leve gemido devolve-me ao interior da trincheira. Vejo um soldado encostado à parede de terra. Reconheço-o. Não me recordo do seu nome, mas sei que aquele homem pálido e ensanguentado pertence ao mesmo pelotão que eu. Com todo o cuidado, rastejo na sua direcção.
Não é necessário ser um médico para saber que já não lhe resta muito tempo de vida. Seguro a sua cabeça e apoio o pescoço nos meus braços.
“Eles… f-fizeram-nos uma e-emboscada…”
A sua voz, fina e trémula, dizia-me que ele estava a dar as últimas.
“Eu sei. Aguenta-te. Não tarda os nossos médicos chegam.”
Disse o que disse apenas para não estar calado. Lembro-me bem do que sucedeu. Os nossos reforços vieram muitas horas após a emboscada.
“T-tem cuidado”, tenta ainda o meu companheiro dizer antes de perecer. “Tem c-cuidado com o maldito gordo.”
O meu coração dispara, assim que oiço tais palavras. Pela primeira vez, há mais alguém que tem conhecimento do gordo.
“O que sabes sobre ele? O que é que ele quer de mim?”, pergunto freneticamente.
“Ele é… foi ele quem…”
Desesperado, noto que já não abano um soldado, mas sim um corpo sem vida.
Largo aquele homem, que já não o é, e corro alguns metros até chegar a uma vegetação um pouco mais cerrada. Ali fico agachado esperando que a chuva de tiros acalme. Sinto os joelhos a tremer, e penso há quanto tempo não sentia aquela sensação, rememoro o quão excitante e forte é estar em combate,e sou interrompido por mais uma explosão esta mesmo junto ao meu ouvido.
O som desaparece e é substituido por um zumbido que se assemelha a um apito rouco, durante alguns instantes observo explosões e tiros ás quais não corresponde qualquer barulho, como se estivesse a assistir a imagens numa televisão em “mute”. Depois como se de um arranque mecanico se tratasse o som volta gradualmente, e eu volto a situar-me no local.
Recomeço a correr em busca de outro abrigo, encontro um pequeno buraco que parece escavado geométricamente na terra, reparo que lá dentro existe uma pequena sala com paredes de betão e duas cadeiras. Salto e aterro naquilo que quase parece uma casa de bonecas para crianças mas em tamanho real, lá em cima a guerra continua indiferente à minha ausencia.
O som de passos faz-me reparar num grupo de soldados atravessa o local onde estou mesmo por cima do buraco e aí reparo na estranha proporção do local onde me encontro relativamente ao exterior, vistas daqui as botas deles parecem enormes, e o resto do corpo atinge alturas que me impede de os ver totalmente, como se este buraco pertencesse a uma dimensão muito mais pequena, como se eu aqui dentro fosse muito mais pequeno.
Com a minha arma novamente apta a disparar, não hesito em fazer passar o seu cano por cima da trincheira e a largar cegamente uma salva de tiros. A probabilidade de acertar em alguém é mais alta do que normalmente se imagina.
Arrisco-me depois a espreitar rapidamente para o horizonte. Preciso de ter uma noção mais ou menos exacta da minha situação. Contudo, com o aproximar da noite, veio também um denso manto de nevoeiro. Tudo o que percepciono são alguns vultos distantes. Será que com a neblina o inimigo decidiu retroceder? Os disparos inimigos parecem ter também abrandado.
Um leve gemido devolve-me ao interior da trincheira. Vejo um soldado encostado à parede de terra. Reconheço-o. Não me recordo do seu nome, mas sei que aquele homem pálido e ensanguentado pertence ao mesmo pelotão que eu. Com todo o cuidado, rastejo na sua direcção.
Não é necessário ser um médico para saber que já não lhe resta muito tempo de vida. Seguro a sua cabeça e apoio o pescoço nos meus braços.
“Eles… f-fizeram-nos uma e-emboscada…”
A sua voz, fina e trémula, dizia-me que ele estava a dar as últimas.
“Eu sei. Aguenta-te. Não tarda os nossos médicos chegam.”
Disse o que disse apenas para não estar calado. Lembro-me bem do que sucedeu. Os nossos reforços vieram muitas horas após a emboscada.
“T-tem cuidado”, tenta ainda o meu companheiro dizer antes de perecer. “Tem c-cuidado com o maldito gordo.”
O meu coração dispara, assim que oiço tais palavras. Pela primeira vez, há mais alguém que tem conhecimento do gordo.
“O que sabes sobre ele? O que é que ele quer de mim?”, pergunto freneticamente.
“Ele é… foi ele quem…”
Desesperado, noto que já não abano um soldado, mas sim um corpo sem vida.
Largo aquele homem, que já não o é, e corro alguns metros até chegar a uma vegetação um pouco mais cerrada. Ali fico agachado esperando que a chuva de tiros acalme. Sinto os joelhos a tremer, e penso há quanto tempo não sentia aquela sensação, rememoro o quão excitante e forte é estar em combate,e sou interrompido por mais uma explosão esta mesmo junto ao meu ouvido.
O som desaparece e é substituido por um zumbido que se assemelha a um apito rouco, durante alguns instantes observo explosões e tiros ás quais não corresponde qualquer barulho, como se estivesse a assistir a imagens numa televisão em “mute”. Depois como se de um arranque mecanico se tratasse o som volta gradualmente, e eu volto a situar-me no local.
Recomeço a correr em busca de outro abrigo, encontro um pequeno buraco que parece escavado geométricamente na terra, reparo que lá dentro existe uma pequena sala com paredes de betão e duas cadeiras. Salto e aterro naquilo que quase parece uma casa de bonecas para crianças mas em tamanho real, lá em cima a guerra continua indiferente à minha ausencia.
O som de passos faz-me reparar num grupo de soldados atravessa o local onde estou mesmo por cima do buraco e aí reparo na estranha proporção do local onde me encontro relativamente ao exterior, vistas daqui as botas deles parecem enormes, e o resto do corpo atinge alturas que me impede de os ver totalmente, como se este buraco pertencesse a uma dimensão muito mais pequena, como se eu aqui dentro fosse muito mais pequeno.
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