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segunda-feira, 14 de março de 2011

Capítulo 18 (Paradoxo Em Negro)

 Não percebo o que se passa, mas esta também não é altura ideal para me debruçar sobre o assunto. Ignoro o interior da sala e tento voltar para o campo de batalha. Não consigo explicar o porquê, mas sinto que devo algo ao meu passado, e isso envolve ajudar os companheiros que há uma porção de anos atrás eu abandonei. 
            Tomada a minha decisão, carrego cuidadosamente a arma e inspiro bem fundo, preparando-me para uma nova investida até à trincheira mais próxima. Contudo, quando ganho impulso e tento sair deste estranho esconderijo, constato para grande confusão minha, que a fenda pela qual entrei vai ficando progressivamente mais pequena. Num primeiro impulso, ainda pondero colocar lá a mão, mas arrependo-me imediatamente, ao verificar que a entrada se torna rapidamente numa fresta por onde mal dá para se espreitar.
 

            Com o pânico, começo a esmurrar com o cano da espingarda a parede que se fecha lentamente, como se ela própria estivesse a fazer pouco de mim. Após algumas tentativas desisto, atirando a arma para o chão num gesto de fúria. Estou novamente preso numa realidade à qual não pertenço. E desta vez, estou também preso a uma realidade capaz de me aniquilar o espírito. 
            Não foi preciso muito tempo para os meus piores receios se confirmarem. Embora permanentemente invisível e a salvo do fogo inimigo, uma nova brecha abriu-se na parede, permitindo que eu assistisse ao desenrolar dos acontecimentos como se estivesse na primeira fila de um espectáculo demente.
            Para meu desespero, sou obrigado a reviver tudo o que se passou há vinte anos atrás, mas não das sombras de alguns arbustos. Desta vez, vejo os meus companheiros a serem dizimados do conforto desta sala perniciosa em que fui encurralado. Partilho a sua dor, o seu medo, os gemidos de quem perdeu já qualquer esperança. Vejo os meus irmãos de armas a tombar, um a um, sem ninguém para os socorrer. Vejo em primeira mão as atrocidades que sofreram sem que ninguém os auxiliasse.
 

            Quando dou por mim, noto que já não sou capaz de olhar. Balanço-me letargicamente com a face escondida entre os joelhos. Sem sucesso, tapo também os ouvidos, na esperança de impedir que o som desta matança não trespasse a minha mente. Estou à beira de sucumbir. Não aguento mais isto. 
            Silêncio.
            De olhos fechados, retiro vagarosamente as mãos dos ouvidos. Após o turbilhão de ruídos, esta tranquilidade parece fruto de algo sobrenatural. Atrevo-me a levantar as pálpebras. Devido à minha fadiga, física e mental, não sinto o meu maxilar inferior a descair ligeiramente. Percebo agora que a sala onde estive este tempo todo aprisionado, é a divisão para a qual o meu alvo entrou. A divisão sem janelas onde o gordo esperava pacatamente que eu entrasse. Aparentemente, não saí daqui durante este tempo todo.
            Ainda bastante combalido, ergo-me da cadeira. Tento recordar-me com exactidão do episódio vivido, pois algo me diz que tudo isto está relacionado com o gordo que me persegue. 
            Sou contudo arrancado dos meus pensamentos pelo meu telemóvel. Engulo em seco para a mensagem que brilha na minha direcção.
            “O nosso cliente está a ficar impaciente. Liga-me assim que terminares a tua missão.”
            O pior é que neste momento não tenho já a mais pálida ideia da localização do meu alvo.

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