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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Capítulo 21 (Paradoxo Em Negro)

Dou dois passos atrás e apalpo a minha Magnum, efectuo um rápido cálculo matemático sobre o tempo que disponho entre o momento em que a porta abrir e a altura certa para disparar. Retiro a arma do bolso e coloco-me em posição, quando subitamente me ocorre que não será essa a melhor forma de lidar com a questão. 
            Se iniciar um tiroteio aqui vou alertar toda a gente e provavelmente o meu alvo terá tempo de ser evacuado antes da explosão, guardo de novo a arma no bolso e começo a correr pela cozinha até me deparar com uma nova porta que me leva para um corredor acinzentado percorro-o até encontrar um desvio que me leva a uma casa de banho, entro e tranco a porta.
 

            Não é preciso ser muito inteligente para perceber que não irá demorar muito até que descubram onde estou escondido. Rodo a cabeça tentando encontrar uma forma de sair dali e deparo-me com uma pequena janela, aproximo-me e tento abri-la mas esta parece estar selada. Oiço duas fortes pancadas na porta e respondo com um murro forte na janela, seguem-se mais duas pancadas e mais um murro meu, a janela parece indiferente aos meus esforços, o mesmo não parece acontecer com a porta que a cada pancada cede um pouco mais. 
            Subitamente sou invadido por uma estranha sensação de dejá-vu, foi assim que tudo começou, foi assim que se iniciou o processo que me levou à loucura, foi numa casa de banho assim, com uma janela assim, e com alguém do outro lado da porta, é como tudo andasse em ciclos e o meu estivesse a recomeçar.
 

            Uma nova pancada na porta, que solta as suas dobradiças perigosamente, devolve-me à situação actual. Ela não resistirá a outro embate. Olhando de soslaio para a janela, vejo que já não tenho hipótese de quebrar a mesma antes de a porta ficar despedaçada. 
            Assim sendo, não me ocorre outra opção senão apanhar os meus perseguidores desprevenidos. Saco rapidamente da minha Magnum, desta vez com o intuito de a usar. Sei que uma nova pancada está para breve pois, tal como eu, também os dois seguranças sabem que a minha barreira está prestes a cair. 
            Sabendo que corro enormes riscos, pois estou provavelmente a lidar com profissionais, afasto-me da porta o mais que o espaço me permite e lanço um forte arremesso com o pé, projectando-me de seguida para a carruagem do comboio em andamento.
            A carruagem do comboio em andamento?
            Sinto que havendo ainda uma nesga de lucidez que fosse, esta dissipa-se velozmente como um sopro mais forte de vento que perde no ar. O tempo que fico estático, de movimentos totalmente presos, perde-se na linha dos rostos que me fitam como se de um louco me tratasse. 
            E não têm eles razão? 
            Desisto já de tentar entender. Este novo golpe faz-me ver que sou um completo prisioneiro da minha demência. Lutar para quê?
            Caminho debilmente por entre o apertado espaço da carruagem que tão bem conheço, chegando por fim ao assento que me é também terrivelmente familiar. Tenho os nervos tão destroçados, que quase solto uma gargalhada doente quando o gordo me fita.
            “O amigo está a sentir-se bem?”, pergunta ele afavelmente, ao vislumbrar o meu aspecto louco.

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