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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Capítulo 22 (Paradoxo Em Negro)

 Olho-o fixamente e respondo:
             “Como se tu não soubesses.”
             O gordo fita-me visivelmente surpreendido:
             “Diga?”
             Ignoro a questão e continuo o meu monólogo:
            “Que mais queres? Que mais pretendes tu de mim, meu grande filho da mãe? Estou farto! Estou farto desta merda!”
             À minha volta as pessoas rodopiam as cabeças na minha direcção, uma senhora mais velha sentada à minha frente apressa-se a levantar-se e corre a sentar-se noutro lugar. Sou como aqueles mendigos, aqueles que as cidades tentam empurrar para as vielas das suas vizinhas. Aqueles que obrigam as pessoas comuns a fechar os vidros dos carros, aqueles mendigos loucos que são para os mortais um mero incómodo, despromoção eterna à categoria de ligeiro inconveniente, algo repugnante que não queres que os teus filhos vejam enquanto ainda estão na idade do pai natal.
             Sinto-me como aquele borrão na mágica pintura do alegre quotidiano, daquelas pessoas que nasceram preparadas para esquecer a existência de outras pessoas como eu. Bom talvez não como eu, mas como aquelas pessoas que em muito se assemelham comigo neste instante.
             Vejo os olhos de toda a carruagem a cravarem-se em mim como se educadamente me pedissem para me retirar ou para fugir ou para desaparecer ou mesmo para morrer, pouco importa isso é problema meu, desde que deixe de causar tal incómodo a toda esta gente honesta, contribuinte e temente a Deus que não tem de suportar pessoas fora do padrão, como eu. O gordo dá-me um ligeiro toque na perna e tenta acalmar-me, numa voz lânguida e quase paternal diz-me que o devo estar a confundir com alguém, e eu quase vomito de tanto nojo que sinto.

             Como é que ele se atreve, como é que o causador de tudo isto se atreve a agir como se não me conhecesse, como se nada disto fosse obra dele, como se eu fosse um simples louco a alucinar num comboio normal.
             “Este comboio já ardeu”, grito enquanto me ergo na cadeira, à minha volta as pessoas começam a ficar realmente assustadas, e encolhem-se nas cadeiras. Indiferente a tudo isto, prossigo:
             “Este comboio, esteve em chamas, fui eu... fui eu que o incendiei.”
             Toda a carruagem se transformou agora num corpo inerte, suspenso no ar à espera de um ligeiro rastilho que a faça explodir. Todas estas vidas tranquilas fixam agora os seus olhos em mim, à espera de um acto que as marque, que as mude ou que as deixe seguir. Sou uma espécie de Deus mas mais mundano, neste momento eu tenho o poder, são as minhas palavras que ditam os futuros passos de toda esta gente, é o dom do medo e neste momento esse dom pertence-me.
             Viro-me para o gordo e aproximando o meu dedo indicador do seu nariz, grito:
             “E tu, tu devias estar morto, devias ter morrido logo ao primeiro tiro que te dei... Mas se esse não chegou, ainda estás a tempo de levar com outro.”
             Coloco a mão no bolso, e oiço a carruagem a gritar à minha volta, as palavras do gordo perdem-se no ar e soam-me agora extremamente ténues, “O que está a fazer? O que está a fazer?”, a arma encaixa-se nos meus dedos e aponto-a à cabeça daquele gordo ridículo, o dedo encosta-se ao gatilho e o meu cérebro desliga-se. Se não estivesse inconsciente teria percebido que tal se deveu ao facto de me terem batido na cabeça.

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