“Como?”, pergunta o gordo, nitidamente desconcertado.
“Quem é o senhor? Como é que se chama?”
“Desculpe?”, atira o gordo. Para além de desorientado, noto agora uma ponta de indignação a elevar-se da sua voz.
Tenho de admitir que por esta não esperava. Embora eu passeie no meu subconsciente, este recusa-se a dar-me imediatamente o que desejo. Aparentemente, sou obrigado a regatear com a minha própria mente para que esta me faculte os dados de que necessito.
“Eu é que peço desculpa”, acrescento rapidamente. “Realmente, por vezes esqueço-me das minhas maneiras.”
Toda a minha vida fui um assassino contratado. E um bom assassino não se mede somente através da boa pontaria ou do sangue-frio com que executa as suas missões. Todos os factores contam. A arte de ludibriar as pessoas, colocando-as à-vontade e fazendo com elas nos passem informações sub-repticiamente é também importantíssima. Arte essa – e digo-o com uma certa dose de satisfação – que domino na perfeição, como se me a tivessem ensinado exaustivamente na escola.
Invento o primeiro nome que me passa pela cabeça:
“João Ribeiro. Faço parte da área de marketing de uma empresa de telecomunicações, e fui enviado para uma convenção a ter lugar no Parque das Nações. É por isso que estou no comboio.”
Disse tudo de uma assentada, estendo rapidamente a mão para o gordo não ter tempo de resposta. Este retribui o gesto timidamente, ainda claramente confuso com toda a situação.
“Ah, certo…”
“E a razão pela qual o abordei deste modo… intempestivo”, afirmo, fingindo procurar o vocábulo certo. “O senhor trabalha também para uma empresa de telecomunicações, certo? A sua cara não me é nada estranha. Tenho quase a certeza que já o vi. O senhor foi à FIL do ano passado?”
Finalmente, uma expressão de compreensão por parte do gordo, acompanhada com um ligeiro sorriso de alívio por ver que não sou um maluco qualquer.
“Decerto está a confundir-me com alguém”, explica o gordo educadamente. “Não trabalho para nenhuma empresa de telecomunicações, nem nunca fui a nenhuma FIL.”
“Não pode ser!”, exclamo dramaticamente ao mesmo tempo que gracejo amigavelmente. “Mas então de onde é que o conheço? Costuma vir muitas vezes a Lisboa? É de cá?”
Ao ver o sorriso simpático do gordo, soube imediatamente que as probabilidades de obter o que queria estavam do meu lado. Libertando na totalidade a sua postura outrora defensiva, o gordo instala-se confortavelmente na sua cadeira.
“Por acaso até costumo vir a Lisboa algumas vezes”, diz este com um encolher de ombros. “Por questões também profissionais, mas o meu ramo de trabalho é bastante diferente do seu”, acrescenta descontraidamente.
“Posso perguntar-lhe o que faz?”, pergunto inocentemente, sem deixar cair a minha máscara de amabilidade. “Já vi que o confundi com alguém, mas como a viagem ainda é grande… se o estiver a importunar diga, que eu calo-me.”
Xeque-mate.
“Não, claro que não”, responde o gordo automaticamente com um novo sorriso. “Com a confusão do início nem me apresentei devidamente. António Marques. Trabalho por conta própria numa loja de…”
Obviamente, nem me digno a ouvir o resto da sua frase. Já tenho o que quero. Finalmente o rosto do gordo ganha um nome.
Já não preciso de teatros e a minha face volta a ser neutra, embora mostre um sorriso vitorioso. O gordo exibe novamente uma confusão imensa, quando me vê levantar abruptamente em direcção à casa de banho da carruagem.
Mas isso é-me já totalmente indiferente.
“Quem é o senhor? Como é que se chama?”
“Desculpe?”, atira o gordo. Para além de desorientado, noto agora uma ponta de indignação a elevar-se da sua voz.
Tenho de admitir que por esta não esperava. Embora eu passeie no meu subconsciente, este recusa-se a dar-me imediatamente o que desejo. Aparentemente, sou obrigado a regatear com a minha própria mente para que esta me faculte os dados de que necessito.
“Eu é que peço desculpa”, acrescento rapidamente. “Realmente, por vezes esqueço-me das minhas maneiras.”
Toda a minha vida fui um assassino contratado. E um bom assassino não se mede somente através da boa pontaria ou do sangue-frio com que executa as suas missões. Todos os factores contam. A arte de ludibriar as pessoas, colocando-as à-vontade e fazendo com elas nos passem informações sub-repticiamente é também importantíssima. Arte essa – e digo-o com uma certa dose de satisfação – que domino na perfeição, como se me a tivessem ensinado exaustivamente na escola.
Invento o primeiro nome que me passa pela cabeça:
“João Ribeiro. Faço parte da área de marketing de uma empresa de telecomunicações, e fui enviado para uma convenção a ter lugar no Parque das Nações. É por isso que estou no comboio.”
Disse tudo de uma assentada, estendo rapidamente a mão para o gordo não ter tempo de resposta. Este retribui o gesto timidamente, ainda claramente confuso com toda a situação.
“Ah, certo…”
“E a razão pela qual o abordei deste modo… intempestivo”, afirmo, fingindo procurar o vocábulo certo. “O senhor trabalha também para uma empresa de telecomunicações, certo? A sua cara não me é nada estranha. Tenho quase a certeza que já o vi. O senhor foi à FIL do ano passado?”
Finalmente, uma expressão de compreensão por parte do gordo, acompanhada com um ligeiro sorriso de alívio por ver que não sou um maluco qualquer.
“Decerto está a confundir-me com alguém”, explica o gordo educadamente. “Não trabalho para nenhuma empresa de telecomunicações, nem nunca fui a nenhuma FIL.”
“Não pode ser!”, exclamo dramaticamente ao mesmo tempo que gracejo amigavelmente. “Mas então de onde é que o conheço? Costuma vir muitas vezes a Lisboa? É de cá?”
Ao ver o sorriso simpático do gordo, soube imediatamente que as probabilidades de obter o que queria estavam do meu lado. Libertando na totalidade a sua postura outrora defensiva, o gordo instala-se confortavelmente na sua cadeira.
“Por acaso até costumo vir a Lisboa algumas vezes”, diz este com um encolher de ombros. “Por questões também profissionais, mas o meu ramo de trabalho é bastante diferente do seu”, acrescenta descontraidamente.
“Posso perguntar-lhe o que faz?”, pergunto inocentemente, sem deixar cair a minha máscara de amabilidade. “Já vi que o confundi com alguém, mas como a viagem ainda é grande… se o estiver a importunar diga, que eu calo-me.”
Xeque-mate.
“Não, claro que não”, responde o gordo automaticamente com um novo sorriso. “Com a confusão do início nem me apresentei devidamente. António Marques. Trabalho por conta própria numa loja de…”
Obviamente, nem me digno a ouvir o resto da sua frase. Já tenho o que quero. Finalmente o rosto do gordo ganha um nome.
Já não preciso de teatros e a minha face volta a ser neutra, embora mostre um sorriso vitorioso. O gordo exibe novamente uma confusão imensa, quando me vê levantar abruptamente em direcção à casa de banho da carruagem.
Mas isso é-me já totalmente indiferente.
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