Os Autores

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Capítulo 27

 Cada passo que dou neste comboio que acelera pelo meu inconsciente reveste-se de uma cada vez maior satisfação. Se durante todo este tempo eu andei perdido na minha mente, significa que dependerá apenas de mim compreender definitivamente esta situação. A cognoscibilidade é um trunfo do meu lado, pertence-me e está confortavelmente alojada no meu cérebro. E agora finalmente tenho um nome, um objectivo...
             António Marques, é esta a causa que me resta, e se eu sei o seu nome é porque o conheço, algures na minha mente está presente tal pessoa, em algum momento da minha vida os nossos caminhos deverão ter-se cruzado, agora só me cabe descobrir quando. 

            Olho em volta no corredor em busca de algo fora do comum, algo que não estivesse lá das outras vezes em que o atravessei, mas nada... Tudo parece estar igual, as pessoas parecem as mesmas, sentadas nos mesmos lugares, algumas conversando entre si, outras dormindo. Tudo isto é um dejá vu que no meu caso já se tornou quotidiano.
 

            Chego à porta da casa de banho, o local que a minha mente transformou numa porta de viagem, que me transporta de um lugar para outro. Esta está vazia tal como da primeira vez, entro e tranco a porta, agora resta-me apenas esperar que alguém bata. Sento-me na sanita e acendo um cigarro, cada inspiração vai-me revigorando, como se uma nova alma me preenchesse o corpo. 
            A minha mente revitaliza-se e arrasta com ela a minha carcaça que parecia cada vez mais destroçada. Por instantes esqueço me do gordo, do comboio e do facto de aquele cigarro existir apenas no meu cérebro, limitando-me a desfrutar daquele momento. 
            Demoro a reparar que já passou muito mais tempo do que da primeira vez, e que ainda ninguém bateu, preparava-me para espreitar quando sou surpreendido por uma travagem brusca do comboio. Abro subitamente a porta e verifico, para minha surpresa, que estou no mesmo sítio, naquele comboio infernal.
            Desta vez, contudo, o ambiente está diferente, as pessoas gritam e correm de um lado para o outro, um banco parece estar a arder e ao meu lado oiço um grito: “alguém acuda, este homem levou um tiro!”, olho e quase que me apetece sorrir perante a ironia, é o gordo, e quem lhe deu o tiro, supostamente, fui eu!

Sem comentários:

Enviar um comentário