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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Capítulo 29 (Paradoxo Em Negro)

 Silêncio. Paz. Com o cérebro a mil, descubro rapidamente onde estou. Provavelmente até porque já o esperava no meu íntimo. Com um toque seco, abro repentinamente a porta da casa de banho do hotel. O átrio deste encontra-se tal e qual como o vi da última vez. Uma música ambiente repousante continua a acompanhar os murmúrios próprios do espaço. Os clientes do hotel até me parecem os mesmos. Tal como o episódio do comboio, eu não me limito a voltar ao mesmo sítio. Eu estou a viver o mesmo momento.
            O mesmo empregado caminha já na minha direcção para perguntar se está tudo bem. Ignoro-o. Preciso de pensar. 
            O meu cérebro comanda-me. Mentalizo-me mais uma vez de que na realidade estou algures preso a uma mesa, onde um homem que nunca vi na vida me induz neste sono demente. E se assim é, então é porque o comboio e este hotel foram, ou são, relevantes na minha vida. O problema é que não vejo como. Nem um nem outro me despertam qualquer memória ou sensação em especial, a não ser uma enorme desorientação. 


            Colocando esse sentimento de lado, proponho-me a tentar descobrir algo que me retire deste pesadelo. Da última vez, abandonei o hotel à pressa. Pois bem, vamos ver se desta vez encontro algo que me tenha escapado. 
            Caminhando sem destino aparente, deixo que o acaso guie os meus pés. Passo por um jovem casal e desvio-me levianamente de duas crianças que correm atrás uma da outra. Noto que as suas gargalhadas vêm acompanhadas com um eco fantasmagórico, como se de um sonho desconfortável se tratasse. Paro. Volto para o átrio e fecho os olhos. 
            Sinto que o meu ritmo cardíaco aumenta automaticamente. Estou prisioneiro da minha mente há um tempo incontável e só agora é que me apercebo disto. 
            Quando estou em certas zonas daquilo que penso ser a minha memória, os sons são perfeitos. Mas agora que reparo, existem alturas em que os sons à minha volta ganham um eco estranho, uma aura que soa a algo irreal. Deduzo que tenha levado tanto tempo a descobrir isto devido ao pânico que me tem toldado o discernimento.


            Decidido a sair desta prisão, caminho de um modo errático ao longo do perímetro do átrio, parando várias vezes para escutar com atenção o ambiente em meu redor. Retrocedo várias vezes até me decidir por onde ir. Após aquilo que penso terem sido cerca de duas horas, dou por mim num corredor do terceiro andar. Embora sinta que estou a fazer progressos, não percebo por que razão é que vim aqui ter. Esta imagem não me diz nada, por enquanto. 
            Caminho lentamente até ao seu final, agora sem saber o que fazer. O meu instinto trouxe-me até aqui, mas ainda não compreendo porquê. Todavia, para minha grande surpresa, a minha mente parece finalmente querer auxiliar-me. 
            No preciso momento em que me preparava para voltar ao átrio, sinto uma porta a abrir-se do meu lado esquerdo. Dou um pulo com o susto, mas depressa controlo os meus movimentos, ao ver a face de um velho que sorri ternamente na minha direcção. 
            "Até que enfim que chegaste", diz-me ele. "Agora já posso ir finalmente descansar."
            Assim que termina a sua enigmática frase, estende-me a mão. Sem uma palavra, aceito do velho aquilo que parece ser uma fotografia bastante antiga. Este faz um aceno e fecha a porta delicadamente. É quando levanto a fotografia ao nível dos meus olhos que tudo se torna outra vez demasiado estranho.

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