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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Capítulo 25 (Paradoxo Em Negro)

 Assim que desperto uma vez mais, vejo que estou confortavelmente encostado a um enorme carvalho, cujo recorte da sombra das suas folhas dança à volta dos meus olhos. Penso que foi a luz incerta do Sol, que incide sobre a minha vista de um modo inconstante que me fez acordar. Deixo que um longo espreguiçar percorra lentamente cada músculo do meu corpo, ao mesmo tempo que inspiro com gáudio o ar puro e revitalizante que o local me oferece. 
            É quando estou a meio do espreguiçar, e de um bocejo que faz os possíveis por se soltar, que algo faz o meu cérebro disparar. Os meus músculos retesam-se e o bocejo que estava prestes a sair ausenta-se imediatamente. Não me mexo, deixando-me ficar com os braços para cima e de olhos fixos no horizonte, como se um encantamento sobrenatural me tivesse subitamente petrificado. 
            “Vou-te deixar sonhar mais um pouco.” 
           Aquelas simples palavras, proferidas por um homem que nunca na vida havia visto, ecoam agora na minha memória. Será possível? Será que estou de facto a sonhar? Será que estou aprisionado algures, atado e preso a uma mesa enquanto embutem drogas nas minhas veias?
 

            Ergo-me da relva fresca e estudo o carvalho. Demasiado real. O relevo do tronco e a pormenorização das folhas. É tudo demasiado real. O ar puro e a humidade da relva. O vento e o calor. O Sol a bater na face. Não há nenhum sonho que consiga ser tão autêntico. Ou então, o que quer que a agulha tenha posto no meu organismo, é mesmo forte. 
            De qualquer modo, se isto for realmente um sonho, há muita coisa que é explicada. As repentinas mudanças de cenário, tal como passar de um comboio para um hotel. O facto de não conseguir eliminar um alvo por mais que o persiga. E, evidentemente, o maldito gordo que deveria já estar morto há imenso tempo.
            Contudo, se assim é, então uma nova questão se levanta assustadoramente. Se neste momento estou preso a uma mesa, com estupefacientes a serem injectados para dentro das minhas veias, quem é que me detém prisioneiro? Quem é aquele homem de fato? E por que é que ele me quer? 
            Lembro-me vagamente de ele lançar um aviso e de me sugerir calma. Qualquer coisa como estar a colocar demasiado em risco. Tento puxar pela memória. Sei que ele disse algo mais, mas não me consigo recordar exactamente do quê.
            “Vou-te deixar sonhar mais um pouco.”
            As suas palavras ressoam uma vez mais dentro da minha cabeça como um sibilar de difícil compreensão, mas bastante perceptível. 
            “Muito bem”, oiço a minha voz soltar instintivamente. 
             Seja. Isto é um sonho, certo? Partindo do princípio de que essa premissa é verdadeira, então deverei admitir que os episódios vividos desde o comboio não passam de produtos do meu subconsciente. E assim sendo, duas deduções lógicas têm de ser feitas.
            Em primeiro lugar, o meu subconsciente está a tentar dizer-me alguma coisa. Em segundo lugar, visto que estou a sonhar, devo poder aceder a essa informação a meu bel-prazer.
            Faço um aceno para mim mesmo e fecho os olhos.
            Assim que sinto a familiar trepidação de uma carruagem em movimento, levanto as pálpebras, fitando automaticamente o gordo. Este olha para mim interrogativamente.
            “Sim? Posso ajudá-lo?”
            “Pode sim”, digo calmamente. “Acho que está na altura de termos uma conversa séria.”

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Capítulo 24 (Paradoxo Em Negro)

 Abandono esta paisagem com um violento abanão. Ao abrir os olhos vejo uma luz muito forte, e um homem de fato bastante bem engomado. Sou invadido por uma súbita saudade daquela paisagem magnífica, quem me dera poder voltar para o meu sonho. O homem caminha em círculos à volta da cama onde me encontro, enquanto acende um cigarro. Pelo cheiro intenso a fumo que está nesta sala não deve ser o primeiro. Tento acompanhar os seus movimentos com os olhos mas o meu pescoço que parece enferrujado não consegue estender-se tanto. O homem dá alguns passos na minha direcção e pergunta:
            “Então, já estás mais esclarecido?”
            Quase que fico indignado com tamanho descaramento. Esclarecido é algo que eu não estou há bastante tempo, e algo me diz que este gajo sabe perfeitamente disso.
            “Tens de parar com isso meu amigo. Estás a pôr demasiado em risco, entraste num campeonato onde não podes jogar, tens mesmo de te acalmar.”
            E aqui vamos nós de novo, já é quase uma tradição que eu esteja sempre a leste do que se passa e do que me dizem, e desta vez não é excepção, mais uma vez não sei ao que ele se refere.
            “Isto pode acabar bem... e só de ti depende, vais sair daqui, e dentro de 4 dias, receberás indicações sobre o que tens de fazer”
           Tento protestar, tento perguntar o que se passa, mas o meu anfitrião ignora, dizendo apenas:
            “Vou-te deixar sonhar mais um pouco”
            Sinto uma agulha no braço, sinto as pálpebras a ficarem cada vez mais pesadas, sinto os músculos a perderem a força, e depois não sinto mais nada...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Capítulo 23 (Paradoxo Em Negro)

 Um número incontável de murmúrios ecoa caprichosamente por entre aquilo que julgo ser uma sala relativamente espaçosa. Digo julgo, porque noto apenas o eco enorme que acompanha as palavras soltas. Não me atrevi ainda a abrir os olhos, pois sinto a cabeça a latejar e as pálpebras pesadíssimas. Além disso, sofro um receio inexplicável de encarar as fontes de tantos sussurros. 
            Não consigo explicar, mas existe algo de tenebroso nos silvos que atingem e fogem dos meus ouvidos. A sua origem não pode ser natural. Há algo. Há algo nestes sibilos que esconde um segredo demasiado pesado para o meu coração. Quero gritar contra os seres que me rodeiam como abutres espectrais, mas não o consigo fazer. Falta-me a voz.
Porventura notando que eu não consigo levantar as pálpebras, os donos dos murmúrios persistem com mais veemência. Debruçam-se sobre os meus ouvidos e tornam a lançar as suas palavras imperceptíveis. Faço um esforço por as compreender, mas não entendo uma única sílaba. O meu corpo treme, tenho medo.

            Quando os murmúrios atingem um timbre tão penetrante que mais se assemelham a gritos de terror, eu dou por vencida a minha resiliência. Estive este tempo todo deitado, sem me atrever a mover um músculo que fosse do meu corpo. Contudo, quando sinto esta brecha no meu auto-controlo ergo-me como um relâmpago, mais movido pelo pânico do que outra coisa. Grito de olhos esbugalhados e estrebucho freneticamente, para afastar as ameaças que voluteiam ameaçadoramente em redor da minha pessoa.
 

            Foram ainda necessários alguns segundos, até eu me aperceber que esbracejo com um demónio numa sala completamente vazia. Olho para baixo e reparo que estou sentado numa confortável cama. Todavia, ainda movido por este medo irracional, salto do leito e rastejo para um dos cantos da sala, colocando-me de costas contra a parede e perscrutando atentamente todas as direcções que a vista me permite.
            Demoro cerca de cinco minutos a normalizar a respiração e, acima de tudo, a expulsar da mente os ecos daqueles temíveis murmúrios. Não sei a quem pertenciam e desejo nunca ter de o descobrir. Com um último suspiro, levanto-me e tento ignorar a fraqueza que se apoderou de mim. O mais importante agora é manter a calma e estudar a nova situação em que me encontro. 
            A divisão que ocupo é incrivelmente espaçosa e amplamente iluminada pela janela de proporções também elas grandes. Sinto um ligeiro sobressalto ao reparar que a janela está protegida por um gradeamento de metal. Estarei prisioneiro deste local?
           A minha primeira reacção é de avançar para a única porta da divisão e girar a sua maçaneta repentinamente. Não me enganei. A porta está trancada. Olho em volta. Dentro da sala existe apenas a cama onde eu estava deitado e uma carpete encarnada sobre o mármore branco do chão. Não vejo como é que poderei escapar.
 

            Atiro a mão ao bolso, apenas para o encontrar vazio. Não fico nada atordoado, pois no fundo esperava já que me tivessem confiscado a arma. Mas é inevitável pensar que as minhas hipóteses de fuga se encontram bastante reduzidas.
Mantenho a calma. Caminho lentamente para a janela e espreito lá para fora, espremendo ao máximo o meu rosto por entre as grades frias e desconfortáveis. Agora sim, sinto-me completamente perdido.

            O que vejo não pode pertencer a um plano real. A paisagem é demasiado magnífica e perfeita para poder ser considerada verdadeira. Nunca, em toda a minha vida, presenciei árvores tão verdes e tão soberbas, retiradas de um autêntico sonho. O ar excessivamente puro, os sons da natureza excessivamente belos. O tom azul do céu tão carregado de excelência, que mais parece uma visão sobrenatural. Há algo que não está bem.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Capítulo 22 (Paradoxo Em Negro)

 Olho-o fixamente e respondo:
             “Como se tu não soubesses.”
             O gordo fita-me visivelmente surpreendido:
             “Diga?”
             Ignoro a questão e continuo o meu monólogo:
            “Que mais queres? Que mais pretendes tu de mim, meu grande filho da mãe? Estou farto! Estou farto desta merda!”
             À minha volta as pessoas rodopiam as cabeças na minha direcção, uma senhora mais velha sentada à minha frente apressa-se a levantar-se e corre a sentar-se noutro lugar. Sou como aqueles mendigos, aqueles que as cidades tentam empurrar para as vielas das suas vizinhas. Aqueles que obrigam as pessoas comuns a fechar os vidros dos carros, aqueles mendigos loucos que são para os mortais um mero incómodo, despromoção eterna à categoria de ligeiro inconveniente, algo repugnante que não queres que os teus filhos vejam enquanto ainda estão na idade do pai natal.
             Sinto-me como aquele borrão na mágica pintura do alegre quotidiano, daquelas pessoas que nasceram preparadas para esquecer a existência de outras pessoas como eu. Bom talvez não como eu, mas como aquelas pessoas que em muito se assemelham comigo neste instante.
             Vejo os olhos de toda a carruagem a cravarem-se em mim como se educadamente me pedissem para me retirar ou para fugir ou para desaparecer ou mesmo para morrer, pouco importa isso é problema meu, desde que deixe de causar tal incómodo a toda esta gente honesta, contribuinte e temente a Deus que não tem de suportar pessoas fora do padrão, como eu. O gordo dá-me um ligeiro toque na perna e tenta acalmar-me, numa voz lânguida e quase paternal diz-me que o devo estar a confundir com alguém, e eu quase vomito de tanto nojo que sinto.

             Como é que ele se atreve, como é que o causador de tudo isto se atreve a agir como se não me conhecesse, como se nada disto fosse obra dele, como se eu fosse um simples louco a alucinar num comboio normal.
             “Este comboio já ardeu”, grito enquanto me ergo na cadeira, à minha volta as pessoas começam a ficar realmente assustadas, e encolhem-se nas cadeiras. Indiferente a tudo isto, prossigo:
             “Este comboio, esteve em chamas, fui eu... fui eu que o incendiei.”
             Toda a carruagem se transformou agora num corpo inerte, suspenso no ar à espera de um ligeiro rastilho que a faça explodir. Todas estas vidas tranquilas fixam agora os seus olhos em mim, à espera de um acto que as marque, que as mude ou que as deixe seguir. Sou uma espécie de Deus mas mais mundano, neste momento eu tenho o poder, são as minhas palavras que ditam os futuros passos de toda esta gente, é o dom do medo e neste momento esse dom pertence-me.
             Viro-me para o gordo e aproximando o meu dedo indicador do seu nariz, grito:
             “E tu, tu devias estar morto, devias ter morrido logo ao primeiro tiro que te dei... Mas se esse não chegou, ainda estás a tempo de levar com outro.”
             Coloco a mão no bolso, e oiço a carruagem a gritar à minha volta, as palavras do gordo perdem-se no ar e soam-me agora extremamente ténues, “O que está a fazer? O que está a fazer?”, a arma encaixa-se nos meus dedos e aponto-a à cabeça daquele gordo ridículo, o dedo encosta-se ao gatilho e o meu cérebro desliga-se. Se não estivesse inconsciente teria percebido que tal se deveu ao facto de me terem batido na cabeça.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Capítulo 21 (Paradoxo Em Negro)

Dou dois passos atrás e apalpo a minha Magnum, efectuo um rápido cálculo matemático sobre o tempo que disponho entre o momento em que a porta abrir e a altura certa para disparar. Retiro a arma do bolso e coloco-me em posição, quando subitamente me ocorre que não será essa a melhor forma de lidar com a questão. 
            Se iniciar um tiroteio aqui vou alertar toda a gente e provavelmente o meu alvo terá tempo de ser evacuado antes da explosão, guardo de novo a arma no bolso e começo a correr pela cozinha até me deparar com uma nova porta que me leva para um corredor acinzentado percorro-o até encontrar um desvio que me leva a uma casa de banho, entro e tranco a porta.
 

            Não é preciso ser muito inteligente para perceber que não irá demorar muito até que descubram onde estou escondido. Rodo a cabeça tentando encontrar uma forma de sair dali e deparo-me com uma pequena janela, aproximo-me e tento abri-la mas esta parece estar selada. Oiço duas fortes pancadas na porta e respondo com um murro forte na janela, seguem-se mais duas pancadas e mais um murro meu, a janela parece indiferente aos meus esforços, o mesmo não parece acontecer com a porta que a cada pancada cede um pouco mais. 
            Subitamente sou invadido por uma estranha sensação de dejá-vu, foi assim que tudo começou, foi assim que se iniciou o processo que me levou à loucura, foi numa casa de banho assim, com uma janela assim, e com alguém do outro lado da porta, é como tudo andasse em ciclos e o meu estivesse a recomeçar.
 

            Uma nova pancada na porta, que solta as suas dobradiças perigosamente, devolve-me à situação actual. Ela não resistirá a outro embate. Olhando de soslaio para a janela, vejo que já não tenho hipótese de quebrar a mesma antes de a porta ficar despedaçada. 
            Assim sendo, não me ocorre outra opção senão apanhar os meus perseguidores desprevenidos. Saco rapidamente da minha Magnum, desta vez com o intuito de a usar. Sei que uma nova pancada está para breve pois, tal como eu, também os dois seguranças sabem que a minha barreira está prestes a cair. 
            Sabendo que corro enormes riscos, pois estou provavelmente a lidar com profissionais, afasto-me da porta o mais que o espaço me permite e lanço um forte arremesso com o pé, projectando-me de seguida para a carruagem do comboio em andamento.
            A carruagem do comboio em andamento?
            Sinto que havendo ainda uma nesga de lucidez que fosse, esta dissipa-se velozmente como um sopro mais forte de vento que perde no ar. O tempo que fico estático, de movimentos totalmente presos, perde-se na linha dos rostos que me fitam como se de um louco me tratasse. 
            E não têm eles razão? 
            Desisto já de tentar entender. Este novo golpe faz-me ver que sou um completo prisioneiro da minha demência. Lutar para quê?
            Caminho debilmente por entre o apertado espaço da carruagem que tão bem conheço, chegando por fim ao assento que me é também terrivelmente familiar. Tenho os nervos tão destroçados, que quase solto uma gargalhada doente quando o gordo me fita.
            “O amigo está a sentir-se bem?”, pergunta ele afavelmente, ao vislumbrar o meu aspecto louco.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Capítulo 20 (Paradoxo Em Negro)

Num primeiro momento insisto em virar o manípulo do automóvel uma e outra vez, fazendo os possíveis por acreditar que tudo se deve a um defeito na porta. Desengano-me finalmente, quando observo o sorriso fingido que ainda não desapareceu da cara do taxista. 
            “Torno a perguntar: é mesmo isso que quer fazer?”, insiste o motorista, sem nunca descolar os seus olhos dos meus.
            Em circunstâncias normais, jamais responderia a tal provocação. Fingiria que não tinha percebido e acabaria por sair do táxi sem ter reagido à pergunta. Contudo, tendo em conta o panorama actual, quem é que me pode censurar por desta vez não me fazer de desentendido? Mal o taxista tinha aberto a boca, já eu fazia desaparecer aquele irritante sorrisinho com a minha arma.
            “E você? Quer continuar a desafiar a sua sorte?”, atiro vitoriosamente sobre o taxista, que me contempla com um olhar que joga agora entre o confuso e o assustado.
            “Eu… não me está a reconhecer? Eu trabalho também na agência! Fui enviando para o ajudar porque conheço bem esta zona. E fiz a pergunta que fiz porque há uma maneira muito melhor de completar o trabalho!”
            O homem sentado no banco do condutor disse tudo aquilo muito depressa e de uma assentada, mantendo sempre as mãos viradas para cima. Deu a entender que estava verdadeiramente intimidado com a minha reacção hostil. 
            “Prove-o”, digo calmamente. “Prove que trabalha na mesma agência que eu. E faça-o devagar.”
 

            Muito lentamente, o suposto taxista leva uma das mãos ao bolso interior do casaco. Mantém o casaco aberto com a outra mão, para eu poder verificar que não vai buscar nenhuma arma. Com a ponta dos dedos puxa um cartão e vira-o na minha direcção. Ele não estava a mentir. Todos nós temos um cartão de uma empresa fictícia como meio de identificação, cartão esse que o taxista acaba de mostrar. Baixo a arma. 
            “Se estamos do mesmo lado, porquê as perguntas? Porquê trancar o carro?”, questiono, um tanto desorientado.
            “Sabes tão bem quanto eu que tem de ser assim, tu não estás bem e não podemos correr riscos agora.” 
            Fito-o cada vez mais profundamente, e tenho de reconhecer que ele tem razão. O motorista percebe que tem o meu consentimento e põe o táxi de novo em movimento, contornamos o parque de estacionamento que rodeia todo o edifício, em seguida entramos por uma espécie de túnel que nos leva a um estacionamento subterrâneo. 
            O taxista estaciona junto a duas colunas que estão mais próximas entre si do que as restantes que compõem o padrão. Sai do carro em corrida e eu imito-o, ao abrir o porta-bagagens mostra-me dois dispositivos enormes que eu reconheço como bombas. Perante a minha estupefacção ele aligeira-se a explicar-me: 
            “Vamos rebentar com isto tudo. Da tua parte preciso apenas que assegures que ele está no décimo andar às 19 em ponto e aconselho-te a não estares por perto.” 
            Tento questioná-lo, mas ele aponta para a porta do elevador pedindo para que me despache. Corro em silêncio para o elevador, subo até ao décimo andar, e deparo-me com um salão enorme onde várias pessoas imaculadamente apresentadas conversam enquanto petiscam os acepipes. 
            A minha chegada chama a atenção de dois seguranças que se interrogam sobre o meu aspecto. Vejo-os a aproximarem-se e procuro uma casa de banho, não a encontro mas dou com a cozinha e é para lá que entro. Ao espreitar pela clarabóia percebo que os seguranças não vão desistir e se preparam para entrar para aqui também, e agora já trazem uma arma na mão.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Capítulo 19 (Paradoxo Em negro)

 Procuro a porta por onde entrei e desço as escadarias a correr, os degraus parecem estender-se aos meus passos, como se cada iniciativa minha demorasse agora o triplo do tempo normal, parece que o mundo vive ao dobro da minha velocidade. Chego à rua e procuro um sinal, desafio o instinto a dar-me uma pista, uma ajuda, qualquer coisa, eu tenho de encontrar aquele gajo e matá-lo e tenho de o conseguir já. 
            Atravesso a avenida onde me encontro em direcção a um restaurante, entro percorro todos os presentes com o olhar, repito o procedimento em mais três ou quatro locais. Nem sinais dele, como seria de esperar. Opto por sentar-me no último restaurante onde entrei, um daqueles sítios de comida saudável para aquelas pessoas saudáveis, que adoram ser saudáveis e que impõem a saúde a todos mesmo àqueles que dispensam ser saudáveis. 
            Peço um café, e a empregada fita-me, esperando que eu deseje uma salada, ou alguma daquelas coisas que fazem bem, ignoro-a e ela volta para o balcão. Tiro um guardanapo e tento apontar, os meus últimos movimentos, a ultima vez que vi o meu alvo, e tudo o que se passou entretanto. É muito mais fácil ser um assassino quando não se está louco e não se tem alucinações.
 

            Sinto o meu telemóvel a vibrar no bolso, ao abri-lo deparo-me com uma mensagem escrita que expressa unicamente o seguinte: 
            “É melhor olhares para a televisão”, rodopio rapidamente a cabeça em torno do restaurante, e detenho-me diante um ecrã ao fundo da sala, que me mostra um noticiário. 
            Levanto-me e aproximo-me gradualmente para confirmar aquilo que me parecer à primeira impressão, é mesmo ele, o meu alvo está no ecrã a apertar a mão a outro tipo. Não percebo muito de política mas tenho quase a certeza que o outro tipo é o primeiro-ministro. 
            Vejo-os entrarem para um edifício grande que me parece ser a sede de uma qualquer empresa. O meu alvo está completamente diferente, apresenta-se de fato imaculado, e o seu cabelo ganhou uma tez aloirada, só tenho a certeza de ser ele, quando a perspectiva da câmara me deixa ver claramente a cara dos seguranças, os mesmos que o acompanhavam quando saiu do hotel.
            Procuro por entre os clientes, o possível autor da mensagem que eu recebera, mas cedo percebo que tal esforço será inútil, saio a correr e só após atravessar dois quarteirões é que me lembro que não paguei o café.
 

            Opto por apanhar um táxi, não me lembro o nome da empresa mas tenho a impressão de conhecer aquela zona, e sigo esse intuito pedindo ao taxista para me levar para a faixa empresarial da cidade, uma espécie de campus onde se concentram as sedes de todas as grandes empresas. O táxi atravessa vagarosamente as vielas, e o motorista parece ficar incomodado quando lhe peço para acelerar. 
            Demoro cerca de vinte minutos até chegar à zona pretendida, através do vidro vou avaliando os edifícios um a um, até que avisto o meu destino a cerca de cem metros de distância, preparava-me para ordenar ao taxista que parasse, quando este trava o táxi e desliga o taxímetro Virando-se para trás fita-me sorridente: 
            “É aqui, não é?” 
            Respondo afirmativamente, ignorando a estranha coincidência, entrego-lhe o dinheiro abdicando do troco e puxo o manípulo da porta, só aí me apercebo que o táxi está trancado. Olho para o taxista que mantendo o mesmo sorriso de há pouco me pergunta: “Tem mesmo a certeza do que está a fazer?”